ABIA realiza Oficina de Contos Eróticos para guia de Sexo Seguro


O que é erótico nos dia de hoje? Até onde o erotismo é fantasioso ou um rompante de limites? Que fantasia alimenta seu lado erótico? Um conto erótico sempre é estimulado pelo lado sexual ou fatores paralelos contribuem para aguçar a imaginação? Todas essas indagações e provocações foram postas sob a mesa para debates durante a “Oficina de Contos Eróticos”, realizado na sede da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), na tarde da última terça feira (25/04/17), no Centro (RJ).

A atividade teve como objetivo reunir jovens e adultos para compartilhar e criar contos eróticos (textuais ou por áudio) de maneira colaborativa para evidenciar as variadas formas e práticas sexuais sob os diferentes olhares sejam eles pessoais, criativos, inovadores, exóticos, históricos, emocionais/eróticos e técnicos na formação de um guia de Sexo Seguro pela instituição. “O que eu quero é que vocês possam fazer uma intercessão entre os seus contos sexuais e o sexo seguro, a camisinha e outros contextos para o nosso guia”, orientou Vagner de Almeida, coordenador do projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens da ABIA. Sem pudores, os presentes (pouco mais de uma dezena) descortinaram suas histórias mais íntimas, envoltas de desejos e fricções, com diversos adendos e observações a partir de temas como poliamor, voyeurismo, suruba, masturbação e etc. “Pra mim não funciona e não me excita ter uma terceira pessoa na relação”, revelou a estudante de estética Christiane Maltez.

Em seguida, os jovens e adultos foram instigados para escreverem seus contos (baseados em fatos reais ou ficcionais) sexuais como bem quisessem. Um ponto interessante levantado no encontro foi sobre a necessidade de saciar o ego, o desejo e os prazeres alheios em detrimento daquilo que verdadeiramente te satisfaz. E as diversas reações que expor seus desejos e quereres ainda causam nos demais. “Comigo aconteceu algo muito engraçado, porque uma amiga viu minha confirmação de interesse na Oficina erótica e veio no privado perguntar se eu estava bem”, disse a ativista Jenaína Pereira. E quando a estranheza vem da migração de uma cidade amazônica para uma grande metrópole como o Rio de Janeiro? Foi isso que aconteceu com o jovem Thiago Leite quando veio a dois anos de Belém, no Pará, para a capital carioca. Ainda se acostumando com o ritmo da cultura local, após ouvir os contos eróticos urbanos dos colegas, ele compartilhou as diferenças entre as cidades e uma desejosa experiência. “É interessante conhecer essas histórias de vocês, porque eu sou de Belém e lá não tem metrô ou trem, só ônibus e lá as pessoas tem vontade de fazer essas coisas (flertes e sexo em transportes), mas não fazem porque não podem”, disse. Mas muitas das vezes o abuso ocupa o espaço destinado ao erotismo, especialmente, quando o sexo (ou o desejo) não é consentido. Segundo o participante H.R “durante muito tempo eu não consegui transar sendo ativo sexualmente, pois fui abusado por um parente. Mas depois eu consegui e vi que era um problema psicológico. Mas isso me bloqueou”, revelou.

Dispostos e falantes, os presentes ainda expuseram contos eróticos mais sórdidos, sexualmente falando, e o porque do prazer ser tão marcante na ocasião. Cinemas pornôs, saunas, metrô, trem e outros ambientes foram os mais citados como locais de sexualização, erotização e fetichização. Sobre este último quesito, os jovens divergiram sobre os limites e/ou os diferentes tipos de tesão que existem como práticas: do sexo anal ao famoso “passar cheque” (sujar o pênis durante o sexo anal) e aqueles que se excitam com fezes e urina. “Eu acho que temos que desconstruir essa coisa do anal. Ora, se você tá (sic) penetrando ali, tem que tem em mente que vai sair algo dali”, disse Thiago.

Sobre a participação dos aplicativos de relacionamento na erotização o debate concentrou-se no limiar entre o prazer de estar com um desconhecido, o desejo compartilhado com alguém que se tenha uma breve intimidade ou ainda a presença em fantasias de casais. “Conto erótico é isso. É você ter uma sinopse, entrar no aplicativo, alimentar uma conversa gostosa, gozar e expressar sua imaginação”, frisou Almeida. Já para o jovem Willam Santos, “os maiores conhecimentos e relações de cunho erótico que aconteceram comigo foram em lugares casuais e heterossexuais, porque eu não gosto de baladas gays. Pra mim é muito mais interessante”, pontuou. Interessante também foram as deliberações sobre o tabu de assumir como passivo (no caso dos homossexuais) e, portanto, gostar de sexo anal. Para Thiago Leite, a questão passa pelo machismo que “intrísecamente está em todos nós e é passado e reproduzido desde que somos pequenos, quando nossos papéis costumam serem definidos por sermos homem ou mulher”. Apesar disso, o microempreendedor  Felipe Orel disse não transar como passivo por uma questão de não ter prazer e não sentir-se confortável.

Questionada sobre o que é o prazer anal para a mulher heterossexual, Christiane Maltez afirmou que o (seu) prazer é muito maior. Segundo ela, pela região anal ser “mais apertada”, o prazer aumenta e o gozo chega rápido. “Mas não é com qualquer pessoa”, alerta ela. Uma outra proposta da Oficina de Contos Eróticos consistiu na escrita de frases e estrofes que reunissem o sórdido atrelado ao sexo seguro. Sem a necessidade de identificação em seus contos, os textos foram lidos e revelaram gostos bem peculiares na “hora H”: gozo no rosto, transas em coletivos, camisinhas estouradas, fantasia com calcinha fio dental entre outros. O encontro encerrou-se com uma confraternização recheada de fotos, salgados, refrigerantes e uma boa dose de brincadeiras.

A Oficina de Contos Eróticos foi mais uma ação positiva do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens da ABIA, em 2017, com apoio da MAC AIDS Fund.

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