Visibilidade Trans: Ariadne Ribeiro conta como superou abusos e discriminação para se tornar psicopedagoga


Os problemas começaram a surgir na adolescência, com o início da puberdade. A convivência familiar foi se tornando difícil, pois naquela época o padrasto não a aceitava e as brigas eram constantes. A mãe, sem saber o que era transexualidade, tinha vergonha do filho afeminado e, para piorar, um familiar muito próximo praticava abusos sexuais com Ariadne constantemente. “Eu sofria abuso sexual, físico e psicológico dia após dia”, conta.

Aos 13 anos, iniciou sua transição de gênero, saiu de casa e foi morar com a avó. “Ela foi o meu porto seguro. Me abriu os braços e me deu o amor incondicional de que eu tanto precisava”, diz Ariadne. Aos 14, foi espancada por um grupo de alunos da escola em que estudava. Ficou com o rosto desfigurado e foi no colo da avó que se recuperou. Nessa época, abandonou os estudos. Aos 16, desesperada com a existência do pênis, tentou cortá-lo, trancada no banheiro. Mais uma vez, a avó estava lá para socorrê-la.

Também foi com o apoio e incentivo de Neusa que Ariadne procurou o Hospital das Clínicas, em São Paulo, para dar continuidade à sua transição de gênero por meio da cirurgia de transgenitalização. Era 1997, a jovem ouviu no rádio a notícia de que o Conselho Federal de Medicina havia aprovado o início da prática cirúrgica no Brasil.

Quando Ariadne tinha 18 anos, Neusa morreu em decorrência de um câncer agressivo. “Um pedaço de mim morreu junto”, diz, ao descrever que, sem o apoio da avó, voltou a “perder o chão”. “Comecei a usar drogas. Na minha primeira bebedeira por causa da morte dela, fui estuprada”, diz, com a voz embargada.

Como resultado do estupro, Ariadne contraiu HIV. Aos 21, decidiu voltar com os estudos a distância e, de novo, esbarrou no preconceito de gênero. Fez a prova final, conferiu o gabarito e, para sua surpresa, seu nome não aparecia entre os aprovados. “Eles cancelaram a minha prova porque a assinatura com nome social não batia com o nome de registro”, conta.

Hoje, ela conta que o que faz sentido para sua vida é ser a mão amiga que tantas vezes lhe acolheu. “Muito do que alcancei foi possível por conta de pessoas que fizeram do serviço de saúde algo que poderia dar significa a uma outra vida.”

Vivendo com carga viral indetectável, Ariadne afirma que a ideia de não transmitir o vírus lhe tira um peso. “Me confere a segurança de carregar um vírus que não precisa ser tratado por mim, nem pelas pessoas com quem me relaciono como um risco.”

Sobre os desafios de ser uma mulher transgênero vivendo com HIV, ela defende que “o sofrimento não é do outro. Ele é nosso, é cultural, é social. E faz parte do nosso trabalho desconstruir essa realidade. Não existe ainda um consenso de que a gente tem uma população específica com necessidades específicas”, disse ao relatar as dificuldades que enfrentou desde quando prestou vestibular até conseguir entrar no mercado de trabalho. “Há uma cobrança injusta sobre como uma transexual deve se portar. Como você quer que ela seja meiga e gentil sendo que ela apanha todos os dias da sociedade?”

 

Redação da Agência de Notícias da Aids com informações

%d blogueiros gostam disto: