Vice-presidente da ABIA participa de evento no Acre e compartilha suas impressões e o panorama da atual epidemia de HIV e AIDS no Acre


No último mês de agosto foi realizado em Rio Branco, capital do Acre, o 1º Workshop Regional Norte de Prevenção Posithiva nos dias 01, 02 e 03/09. Organizado pela Amar (Associação de Mulheres do Acre Revolucionárias),  que trabalha com pessoas em vulnerabilidade social, grupos de mulheres lésbicas, profissionais do sexo e transexuais o evento contou com a participação do vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) Veriano Terto Jr.

Com o tema “Fortalecimento e o Desenvolvimento das Potencialidades através de Ações Educativas, Exames Preventivos, Consultas, Palestras E Treinamento” o encontro teve como objetivo contribuir para o fortalecimento, político, social e psicológico das pessoas vivendo com HIV/aids na região norte, bem como o fortalecimento dos grupos de adesão e de outros Movimentos Sociais LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), e de PVHA (Pessoas Vivendo com HIV e AIDS) por meio de um amplo processo de articulação em rede promovendo a saúde, cidadania e o protagonismo das pessoas vivendo com HIV/AIDS.

Para Terto Jr, isso foi um dos pontos chaves de sua participação pois foi possível “conhecer a realidade das pessoas LGBTT que vivem na região Norte do país, especialmente na região amazônica”, especialmente num estado tão longínquo do eixo Rio-São Paulo, composto por 869 mil habitantes – segundo estimativas mais recentes em 2018 do IBGE – e o quarto mais violento do país.

Além disso, na entrevista a seguir, Terto Jr fala da importância do evento, sobre os desafios da realidade local na prevenção ao HIV/AIDS, a recepção dos participantes ao receberem o material “Sexo Mais Seguro: Um Guia sobre Sexo, Prazer e Saúde no Século 21” – produzido pelo Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens com coordenação de Vagner de Almeida e equipe composta pelo assessor de projetos Juan Carlos Raxach, os assistentes Jean Pierry Oliveira e Jéssica Marinho e voluntários – e se mostra agradecido pelo feito dos entes sociais locais.

Confira a entrevista abaixo:

Projeto: Qual a importância de um evento como esse para você?

Veriano: Pra mim foi conhecer a realidade das pessoas LGBTT (Lésbicas Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) e que vivem na região Norte do país, especialmente na região amazônica. Também foi muito importante conhecer a realidade das pessoas vivendo com HIV e AIDS e conversar sobre as novas tecnologias de prevenção, especialmente a PrEP (Profilaxia Pré-exposição) e a PEP (Profilaxia Pós-exposição), assim como outras estratégias de tratamento e prevenção como Testar e Tratar.

 ProjetoO que te chamou mais atenção, tanto pelo lado positivo como pelo lado negativo, durante essa experiência em uma realidade tão distante?

Veriano: Assim, (de negativo) eu acho que a dificuldade. Eu me surpreendi com, por exemplo, relatos de Manaus de jovens soropositivos com diagnósticos muito tardios a ponto de sofrerem com doenças que já deveriam estar superadas nas PVHA e morrendo dessas doenças como toxoplasmose. Pessoas muito jovens com CD4 (células que ajudam a avaliar o estado do sistema imunológico em pessoas infectadas pelo HIV) muito baixas, mostrando o fracasso de como acessar as pessoas para ter um diagnóstico oportuno. Me chamou a atenção, por exemplo, a realidade de grávidas soropositivas que apesar de estarem com gravidez avançada e terem feito pré-natal, não foram testadas para sífilis por exemplo. Então isso, realmente, é impressionante.

Mas por outro lado me surpreendeu (positivamente) a articulação política. É uma região que tem despontado com lideranças políticas bem preparadas e que vem desenvolvendo um trabalho muito bom lá na região amazônica, tanto nas capitais como no interior – que é uma região muito difícil pelas grandes distâncias e dificuldade de transporte – e isso é muito legal. Acho que é importante no movimento de AIDS a gente vê o surgimento de novas lideranças, principalmente, mulheres e mulheres trabalhadoras sexuais tão envolvidas na prevenção, com a pauta da assistência, do ativismo e dos Direitos Humanos das populações mais afetadas pelo HIV. Então eu acho que o Brasil tem que olhar com muito carinho para aquela região porque a gente tem muito para aprender com eles.

 Projeto: E como foi a recepção diante do material “Sexo Mais Seguro: Um Guia sobre Sexo, Prazer e Saúde no Século 21” produzido pela ABIA?

Veriano: O pessoal gostou muito porque foi a primeira vez que eu mostrei o Guia de Sexo Mais Seguro fora do Rio de Janeiro, fora da ABIA e, como era de se esperar, as pessoas falam. Pessoas que nunca tinham visto, principalmente as mais jovens, um material de prevenção com imagens eróticas e de sexo explícito e que atraiu muita curiosidade. Mas, principalmente, a população LGBTT ela foi bastante receptiva e elogiosa ao material.

Projeto: De que maneira você acredita que o Guia pode ser útil para ser trabalhado dentro da realidade local?

Veriano: Eu acho que, como a gente conversou dentro do próprio evento, pra fazer e trabalhar a prevenção – da transmissão sexual – é importante trazer a sexualidade. Não só a sexualidade, mas o sexo, as práticas sexuais para a prevenção. Então, o material ele remete diretamente a experiência sexual e isso é importante porque faz com que as pessoas falem e reflitam sobre as suas próprias práticas sexuais e não sobre questões etéreas sobre sexualidade ou sobre análises. Então há uma conexão imediata entre o que o material fala e o que a pessoa pratica e experimenta. Um diálogo legal entre a pessoa e o material gráfico.

Projeto: Existe alguma expectativa de levar o material para outros estados ou regiões?

Veriano: Sim, eu acho na medida do possível, muito importante levar o material para outras realidades e outros estados para estimular similares. A ABIA não vai dar conta de trabalhar a prevenção e o sexo, nessa perspectiva sexual e nenhuma outra de dimensão nacional, mas a gente pode ajudar a colocar uma sementinha estimular e mostrar que é possível esse trabalho da prevenção e do sexo como duas dimensões que são tão intrínsecas e caminham juntas. E isso é um interesse nacional já que a transmissão do HIV ainda é, majoritariamente, uma transmissão sexual.

Projeto: Que avaliação você tira dessa experiência com representações locais no Acre?

Veriano: Foi muito legal ver as mulheres que organizaram o evento junto com a população LGBTT. A articulação que eles promoveram num ambiente pequeno, numa cidade pequena, onde há muita violência e pobreza como em outras capitais brasileiras. Então foi um ato de muita coragem e muita ousadia delas e eu acho que elas estão) de parabéns por fazer um evento daquela qualidade, principalmente no contexto atual do Brasil e do Acre, em particular.

 

Texto: Jean Pierry Leonardo

Foto: Jéssica Marinho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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