Seminário de Comunicação LGBT+ na UERJ tem participação de Vagner de Almeida


Na tarde da última quarta feira (29), o Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) marcou presença no evento “Berro! Expressão e Comunicação LGBT+”, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no Maracanã (RJ).

Vagner de Almeida, coordenado do projeto da ABIA, foi convidado para debater numa mesa acerca do tema “Produções Audiovisuais e representação do Movimento LGBT+”. Ao seu lado estiveram os convidados Marcio Andrade, Felipe Sholl e moderador Marcos William. Almeida iniciou sua apresentação – com o auxílio de um Power Point – falando do histórico da ABIA e suas atuações e também da criação do Projeto Diversidade Sexual.

Um dos segmentos do trabalho institucional é o Ativismo Cultural, especialmente dentro do HIV/AIDS, Juventudes, estigma, discriminação, preconceito, sexo, sexualidade e gênero por exemplo. “O que era dito nos meios de comunicação sobre os portadores do vírus HIV tinha uma carga muito preconceituosa – e isso ainda não mudou. Por isso eu gosto de trabalhar muito com imagens para poder desconstruir alguns pré-conceitos”, contou ele. Foi repaginando o histórico da epidemia de AIDS que Almeida evidenciou a maneira como a “mídia pode ser perversa”.

 

Teatro Expressionista

Um das vertentes mais conhecidas do Projeto dentro do ativismo cultural foi o Projeto Homossexualidade, de onde originou-se Cabaret Prevenção: espetáculo que unia os palcos do teatro com o contexto da AIDS. “Nessa época a maioria dos infectados eram HSH (homens que fazem sexo com outros homens), até porque muitas mulheres não se sentiam infectadas – e, de fato, não eram. Mas foi um marco porque trabalhamos questões extremamente importantes e com voluntários”.

Ainda nesse período, “quando o meio LGBT não queria saber da AIDS”, foram os entes não governamentais que ajudaram no combate à epidemia. Foi daí que nasceu o Projeto SAGAS”.

 

Mídia de Massa x Mídia Social

Diante de inúmero universitários de comunicação, Almeida passeou por conceitos chaves do curso de Humanas. Segundo ele, “a mídia tradicional faz mídia de massa, ou seja, para o ‘povão’. E muitas vezes ela cria uma falsa realidade, como quando você liga a TV para ver uma novela das nove e vê em 20 anos uma mulher ficar milionária. Num momento como esse que vivemos isso é perverso”, criticou.

Já no que diz respeito as mídias sociais, o que chamou atenção foi a forma obsoleta como nasce, cresce e morre diferentes redes sociais. E como isso é algo geracional. “Hoje vocês têm a Netflix, mas se olharem para diversos logotipos aqui presentes no slide, não tem a Netflix. E essas mídias se propagam muito rápido, por conta de nossos celulares e outros apps”, pontuou.

 

AIDS e Mídia

Se no início da epidemia a AIDS era retratada com um viés de pânico moral, por diversos jornais e revistas, atualmente a AIDS desapareceu das páginas. Perdeu enfoque. “Veículo de comunicação não quer falar sobre isso e as novas infecções, principalmente, em populações mais jovens. Para eles não interessa”, lamentou.

Por isso, a trajetória do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens se faz também pelo meio audiovisual e foi dentro dessa perspectiva que nasceu tantas produções como Borboletas da Vida, Janaína Dutra, Basta um Dia, Jovens, Cidadãos, Brasileiros e seus Desafios entre outros. “Esses são alguns de vários que fizemos e ainda iremos fazer. O registro da vivência LGBT, jovem e vulnerável”, disse.

Durante a sessão perguntas e respostas, questionado por Marcos William e outro universitário sobre o embranquecimento das narrativas cinematográficas e a pasteurização das temáticas LGBTs, Almeida falou que “vocês que são de uma geração nova não perpassaram pelo início do cinema homoafetivo. Porque, na verdade, essa questão homoafetiva e trans é muito de hoje. Então é bom lembrar disso, mas tem desbravadores homoeróticos lá atrás que buscaram algo diferente”, respondeu.

Outro ponto de interrogação surgida durante o debate foi o de uma jovem aluna, que é atriz e atuou num filme LGBT, sobre de que forma o cinema pode acabar com a tendência de sexualizar e erotizar filmes lésbicos, com cunho quase pornográfico. “Quando eu produzi Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica foi uma polêmica danada. Entrevistei 504 lésbicas e só 26 me deram autorização de imagem. Pouquíssimas conseguiam falar essa palavra. E foi muito difícil trabalhar essa questão. Porque todas as outras lésbicas, mesmo numa relação, não queriam aparecer em cena. E o que eu acho que falta é uma nova geração de mulheres inseridas como produtoras e diretoras, especialmente jovens e negras”, discorreu ele encerrando sob palmas.

 

Texto: Jean Pierry Oliveira
Fotos: Vagner de Almeida

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