Roda de Conversa: Suícidio entre Jovens no Brasil e no MUndo (2017)


ABIA realiza a primeira roda de conversa em 2017 sobre suicídio

“É muito difícil olharmos e repararmos nos outros nessa sociedade atual, onde estamos todos conectados via tela de um celular”. Foi breve e objetivo que Vagner de Almeida, coordenador de projetos da ABIA, iniciou a primeira roda de conversa da instituição e do projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens em 2017.

Realizado na sede da ONG, no Centro (RJ), às 18h30, da última segunda feira (20/02/17), o evento “Suicídio entre Jovens no Brasil e no Mundo” se propôs a debater, refletir e problematizar a importante questão do suicídio entre jovens e adultos no Brasil e no mundo, correlacionando-os ou não, com questões como HIV, Depressão e etc. “Eu acompanho a tema da soropositividade desde 86 e já ouvi muita gente com essa vontade de querer tirar a vida, como se a saída (para os problemas) fosse a morte”, disse Juan Carlos Raxach, coordenador da Área de Promoção da Saúde e Prevenção da ABIA, presente como um dos especialistas na Roda. O aumento da baixa auto estima, aliada à um diagnóstico positivo e que leva a um crescente número de pessoas, especialmente jovens, a atentar contra suas vidas, foi ressaltado por Almeida como um sintoma preocupante dos dias atuais. Para Penélope Esteves, psicóloga e também especialista convidada, “hoje em dia vemos todo mundo feliz, vivendo um padrão de vida através de fotos, vídeos e pessoas que são “tudo isso”, enquanto nós “não somos nada”. E que impacta diretamente sobre os outros como, por exemplo, num jovem da periferia fora desse contexto”, contemporizou ela. E completou: “Eu proponho refletirmos juntos sobre isso e debater que tipos de padrões são esses. E o que é se suicidar, de fato? É cheirar uma carreira de cocaína? Ou isso não matará sendo considerado um suicídio?”, indagou.

Almeida acredita que, atualmente, os modelos impostos pela sociedade são elementos que atingem com muita freqüência todos aqueles que não desfrutam da mesma rotina ou realidade que a “grande massa”. Mas e quando o padrão vem de dentro de casa e te pressiona diante de aspirações que depositam em você? Para a ativista Regina Bueno, “muitas vezes quem deveria te apoiar é quem te determina, te esmaga, perante aquilo que ela ou ele quer que você seja. Mas a equidade não existe”, frisou ela, que revelou ainda ter passado pela depressão na época da faculdade, quando não soube lidar com as dificuldades impostas pelo mestrado e a falta de atenção dada naquele momento por sua mãe, que não entendia e nem sabia o que ela sentia. “Quando eu recebi meu diagnóstico, logo após a época da morte do Cazuza, eu mesma falei para mim: agora eu tenho prazo de validade”, foi à constatação da participante S.B. diante da soropositividade. Além disso, revelou ter sido usuária de drogas pesadas e teve depressão que nela “é algo crônico, pois vai e volta pelo fato de eu ter sido usuária de drogas e ter essa insatisfação da vida. Ou tinha”, disse. Os sintomas da atual perspectiva e realidade vivida pelo brasileiro (socialmente, economicamente, moralmente e no âmbito familiar) foram destacados com afinco na Roda de conversa. A falta de afeto, o dia a dia acelerado de cada um e o distanciamento das relações interpessoais incidem e contribuem para o “adoecimento” das pessoas, onde até a percepção – para enxergar quando o outro precisa de ajuda, como na depressão ou tentativas de suicídio – fica prejudicado.

“A vida parece muito fácil e o jovem está muito segregado. O ser humano é complexo, ele cria suas próprias regras. Temos que repensar nos dias de hoje. Quando eu vejo um jovem dizendo para mim que vai se matar, eu tento entender porque e “dar um choque” nele. É um princípio muito dolorido”, afirmou Almeida. Para Salvador Côrrea, psicólogo e coordenador da área de Treinamento e Capacitação da ABIA, também especialista convidado, desde a época da faculdade que o tema do suicídio lhe chamava a atenção.“Eu  demorei muito a entender isso . E eu falo não apenas como soropositivo, mas também como alguém que pensou em se matar quando recebeu o diagnóstico. Hoje usamos muito o “óculos” do outro para ver a vida. Nem tudo o que fazemos ou postamos é para nós mesmos. E será que temos toda essa necessidade de fazê-lo?”. E completou: “Quando eu mudei de “óculos”, aquele que a sociedade me fazia usar, foi libertador. E eu não penso mais em morte”, pontuou.

“Mas não é fácil ou nem sempre é possível tirar o“óculos” que eu estou usando. Especialmente se você não nasce na Vieira Souto, como eu, que veio do mangue de Ilhéus, negra e pobre. Onde vou achar outra ótica? O que eu quero dizer é que o “caminho das águas” (o resgate da vida) não chega para todo mundo e nem a luz do fim do túnel. Eu nunca pensei em me matar porque eu não era nada. Mas já pensei por não me achar capaz de ser e fazer algo. Não há uma resolução completa para isso”, rebateu a baiana e militante Jenaína num relato verdadeiro e sincero sobre sua história. Vivendo as agruras dos conflitos, emoções e frustrações mal resolvidas de vida, que derrubam sua auto estima, o ativista Lázaro Silva exasperou dizendo que “o sentido e a vontade de não viver é recorrente para mim. Há pouco tempo eu parei de tomar meus remédios, porque achava que assim a minha tristeza e problemas estariam resolvidos. Eu, às vezes, me vejo defensor do suicídio até mesmo para mim”.

“É importante que saibamos trabalhar no horizontal. Que você ouça, mas também fale. Você não pode aceitar a imposição do outro, sobretudo, porque você tem o livre arbítrio”, pontuou Almeida. Encerrando as atividades da Roda, o coordenador de projetos agradeceu a disposição e a colaboração de todos os jovens e adultos presentes e os convidou para a próxima roda de conversa: “Amor em Tempos de AIDS”, que será realizado no dia 21/03/17, às 18h30, na sede da ABIA, no Centro (RJ). Ainda foram sorteados e distribuídos cartilhas, folhetos e kits com camisetas, calendários e camisinhas.

A roda de conversa “Suicídio entre Jovens no Brasil e no Mundo” foi mais uma ação positiva do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens com apoio da MAC AIDS Fund.

Texto: Jean Pierry Oliveira

 

 

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