Projeto Diversidade Sexual participa de Seminário sobre Consciência Negra e Direito à Igualdade


Na última segunda feira (12/11), a Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ) serviu de palco para o Seminário Consciência Negra e Direito à Igualdade. O objetivo foi debater e evidenciar questões pertinentes acerca da vivência do negro e da negra no Brasil, pelo viés jurídico, social, econômico e cultural entre outras vertentes.

A Mulher Negra no Mercado de Trabalho

Esse foi o tema da palestra comandada por Mayra Castro, advogada e mestre em Direito Internacional e Europeu pela Universidade de Genebra, na Suíça, membro do Grupo Mulheres do Brasil e criadora da empresa Ajuri. Sua fala iniciou-se de maneira muito objetiva, trazendo para o cerne do debate a qualidade em detrimento da quantidade. Isto é, preocupou-se em apontar exemplos de mulheres negras no mercado formal de trabalho, como líderes e empreendedoras, no lugar de números ou gráficos. Algumas delas que foram destacadas são figuras proeminentes, nacional e internacionalmente, como: Adriana Barbosa, Luana Gerst, Maria Gal, Lisiane Lemos entre outras de áreas diversas tais como Artes Cênicas, Empreendedorismo, Ciência e Tecnologia, Finanças etc.

Algumas das apreensões de Castro chegaram a determinadas características em comum que orbitam em torno dessas – e de outras –  mulheres negras no mercado de trabalho, como a seguir:

– Mulheres empoderadas profissionalmente;

– Não basta serem boas. Tem que ser excelente!

– São únicas (em todos os sentidos e patamares);

– Resilientes  etc.

Sobre sua trajetória, Mayra Castro reconhece seus privilégios a partir de pontos destacados por ela mesma: estrutura familiar, boas escolas, universidade pública (“início da meritocracia”), invisibilizada (“pela cor de pelo colorida”). “Tiver meus privilégios, mas não significa que eu não tenha passado dificuldades. Meu pai me dizia “devolva para a sociedade todo o investimento do dinheiro público em você’. E eu persisti nisso. Meu pai estava certo”, concorda ela. Dali em diante mudou-se para a Suíça, após a conclusão da graduação, à convite de uma tia que por lá morava, mas nem tudo foi como esperava.

“Eu tinha certeza que não era boa o suficiente. Fui para a Suíça sem saber falar nenhuma outra língua além do Português, tive que aprender Francês em cinco meses e meio para fazer o mestrado, entrei na universidade mas consegui ser jubilada (perda de direito à matrícula em curso ). Duas vezes, entre 2008 e 2012.”, revela ela sobre as adversidades em solo suíço. “Mas não desisti, voltei pra faculdade e trabalhando como doméstica para ganhar um dinheiro a mais. E sempre soube que eu chegaria onde queria que era trabalhar com Relações Internacionais. Logo após a conclusão  do curso voltei pro Brasil e, em seguida, a embaixada suíça me chamou para realizar um trabalho. De lá pra cá tudo mudou e se hoje estou onde estou é porque não me dei por derrotada lá atrás. Porque a gente pode cair, mas só ficamos no chão se quisermos. Levantar e permanecer de pé é resisitir, principalmente para nós mulheres negras”, atestou ela com orgulho.

Consciência Negra e Direito à Igualdade

Os direitos dos negros à igualdade estão ameaçados num momento de ascensão da direita e forças conservadoras? Essa indagação foi o ponto de partida de Frei David em sua apresentação. Fundador e presidente da ONG EDUCAFRO – uma das organizações e lideranças mais importantes na garantia de ações afirmativas no Brasil, como acessibilidade de jovens negros em universidades e outras instituições  – ele pautou o tema das políticas públicas como instrumento de oportunidades iguais para todos. E citou por onde a busca desse direito pode começar.

“A consciência de seus direitos e reconhecimento de suas capacidades e conquistas do povo negro vai começar pela ascensão da direita e extrema direita ao poder no Rio de Janeiro e no Brasil. É a grande chance”, aposta ele. Consciente das desigualdades e rachas raciais e sociais no país, Frei David rechaça o despertar do povo negro como elemento fundamental para o alcance das prerrogativas que os atingem.

Com um forte posicionamento sobre as cotas no Brasil e as conquistas até aqui alcançadas por ela, o religioso afirmou que “com esses novos governos, a negrada não pode se calar. Tem que enfrentar as feras. Essas conquistas vieram ao passo de muitas lutas de negros e negras corajosos e corajosas. E somos um dos mais vitoriosos povos negros entre os oprimidos do mundo”, encerrou ele com essa declaração.

Direito à Igualdade e Procuradorias de Estado

O Procurador Geral do Estado Christiano Taveira recebeu a incumbência de descortinar através de uma linguagem simplificada e leve os artigos, leis, incisos e outras normativas jurídicas que protegem os direitos dos negros no estado do Rio e no Brasil como um todo. Tijucano, filho de mãe negra e pai branco português ele disse que “sempre vivi entre esses dois mundo, sendo branco demais para uns e muitas coisas e negro demais para outros e muitas coisas também”.

Sagaz e objetivo, Taveira passeou por sua trajetória até chegar na PGE-RJ, as conquistas do movimento negro, as dificuldades para manter os direitos protegidos e o que ainda é possível alcançar. “Quantos procuradores negros de 300 no total tem aqui? E de pele escura? Um? Dois? Nenhum? Pouquíssimos. Para atuar como advogado sou branco, mas para procurador sou negro demais. Incomoda, causa estranheza. Até quando dou aula em universidades e dizem que ‘não tenho cara de procurador’. Mas nós não vamos desistir. Não podemos parar nunca”, pediu ele encerrando o evento.

Texto: Jean Pierry Oliveira

 

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