Professora cria ‘kit abraço’ para visitar alunos da rede municipal do Rio durante a pandemia


O evento surpresa foi combinado com antecedência com os pais dos alunos, que concordaram em proteger as crianças com as máscaras e as capas de chuva. Foto: Acervo Pessoal

Sentindo saudades e cansada de ver os alunos somente por meio da tela de um computador, a professora do ensino fundamental Maura Silva, de 47 anos, decidiu agir. Comprou e confeccionou dezenas de capas de chuva, máscaras e luvas descartáveis para visitar, pessoalmente, 55 alunos da rede municipal de ensino da Prefeitura do Rio de Janeiro (RJ).

Em dois dias do mês de julho, abraçou dezenas de estudantes que vivem nos bairros periféricos de Padre Miguel, Realengo e Bangu – sempre protegendo a si mesma e as crianças para evitar infecção por COVID-19. A atitude deixou alunos, pais e mães emocionados.

“Foram sete horas de carreata. Só não visitei mais alunos (no mesmo dia), porque muitos não estavam em casa”, contou a professora em entrevista ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio).

O evento surpresa foi combinado com antecedência com os pais dos alunos, que concordaram em proteger as crianças com as máscaras e as capas de chuva. Quando chegava às residências, a professora tocava músicas usadas em sala de aula. Era a dica para os pais levarem as crianças ao portão de casa.

“É impossível lembrar disso e não chorar”, contou a professora ao detalhar a experiência. “Tive vontade de não soltar mais, de continuar abraçando. Consegui me lembrar do cheiro de cada um, do cabelo, da mãozinha”, disse.

“Não acredito em uma pedagogia sem afeto. Não é possível fazer uma criança querer descobrir o mundo ou descobrir suas potencialidades se ela não for envolvida pelo coração.”

Com a intensificação da pandemia de COVID-19 no Brasil, em março, as escolas do país precisaram ser fechadas, deixando cerca de 35 milhões de crianças e adolescentes longe das salas de aula.

Foram criadas opções para a continuidade da aprendizagem em casa, mas nem todos estão conseguindo manter o processo de aprendizagem – em especial os mais vulneráveis.

A professora relatou algumas das dificuldades do ensino a distância, agravadas pela dificuldade de acesso à Internet. “Tenho 57 alunos nas duas turmas. Nem todos conseguem se conectar”, declarou.

“Há mães que não têm Internet, mas colocam crédito (no celular) para usar os dados móveis na hora da aula. Algumas pedem a senha da Internet dos vizinhos”, contou. “Também há aquelas que trabalham. Essas eu atendo à noite.”

A jornada de trabalho de Maura Silva também está mais intensa, uma vez que ela se esforça para atender as necessidades de pais e alunos. “Tenho pais semianalfabetos, analfabetos funcionais, que não sabem muito bem como explicar, como chegar à criança, como falar com ela para fazer aquele trabalho.”

“O tempo todo eles me solicitam porque não entendem alguma coisa. A dificuldade é essa. O pai não está preparado para o contato via computador e a criança também não.”

A pandemia de COVID-19 criou a maior perturbação educacional da história e o fechamento prolongado de escolas pode consolidar ainda mais as desigualdades no acesso à aprendizagem, alertou no início deste mês o secretário-geral da ONU, António Guterres.

A ONU estima que a pandemia tenha afetado mais de 1 bilhão de estudantes em todo o mundo. Apesar dos esforços para continuar aprendendo durante a crise, inclusive por meio de aulas por rádio, televisão e online, muitos ainda não estão sendo alcançados.

Maura Silva dedica a maior parte de seu dia a tornar a experiência do ensino a distância menos desgastante. Para isso, transformou a sala de estar de sua casa em uma sala de aula. Além disso, investe em atividades que os alunos possam realizar em família.

“Peço que assistam a filmes, mando um livro por Whatsapp que eles possam ler juntos e me mandar um retorno. (…) Peço coisas que sejam possíveis, porque esse aprendizado agora é da família também, não só da criança”, contou.

Na opinião da professora, a escola deve se abrir para as famílias dos alunos, mesmo após o fim da pandemia. “A função do professor é tirar aquela cortina do mundo e fazer com que as crianças percebam que têm um mundo imenso lá fora do portão de casa e da escola, e que está dentro dela (a possibilidade) de descobrir o que fazer. E a família tem que fazer parte desse processo.”

Apesar de prever realizar novas visitas às residências dos estudantes, Maura Silva diz desejar revê-los em breve em sala de aula, quando for possível fazê-lo. “Porque é ali que as coisas mágicas acontecem, é ali o nosso mundo”, concluiu.

UNICEF: é urgente buscar cada criança e adolescente que não conseguiu se manter aprendendo

Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) lançou no fim do mês passado (24), em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), a Busca Ativa Escolar em Crises e Emergência.

Trata-se de um guia para apoiar estados e municípios na garantia do direito à educação de crianças e adolescentes em situações de calamidade pública e emergências, como a pandemia da COVID-19.

“Não há como definir uma data única de volta às aulas presenciais no país, que tem de ser decidida de acordo com a situação epidemiológica de cada estado e município”, explicou Florence Bauer, representante do UNICEF no Brasil.

“Mas a preparação das redes escolares para a reabertura de maneira segura deve ser prioridade absoluta em todo o país, assim como a busca ativa de quem não está conseguindo aprender com as escolas fechadas”, defendeu.

Além de encontrar meninas e meninos que estão fora da escola, ou em risco de evadir, é fundamental preparar as escolas para receber os estudantes em segurança, mitigando os riscos de infecção pelo novo coronavírus, alertou o UNICEF.

Clique aqui para acessar o guia Busca Ativa Escolar em Crises e Emergência.

Fonte: ONU Brasil

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