Papo reto sobre o Covid-19


 

Raul Santiago, do Alemão, fala do que tem feito em sua comunidade e sugere solidariedade descentralizada

Raul Santiago, de 31 anos, é nascido e criado no Complexo do Alemão, zona Norte do Rio. E deu uma aula de solidariedade na nossa quarentena de lives, ao relatar as ações desenvolvidas na favela.

Logo que surgiu a crise sanitária, ele reuniu seu coletivo Papo Reto – que fala de comunicação, direitos humanos, memória e cultura – a outras ações afirmativas locais, como o Voz das Comunidades e Mulheres em Ação. Juntos, formaram um “gabinete de crise”, para ajudar a espalhar notícias sobre como se precaver do vírus.

– Nem todo mundo tem TV ou internet, então precisávamos criar uma estratégia de comunicação com essas pessoas. E a ação é parecida com o que fazem os eventos locais: usamos carros de som, gravamos um áudio com batida de funk e os dizeres sobre os cuidados com o coronavírus – diz, lembrando também que foram penduradas faixas nos principais acessos do Alemão.

Raul lembra ainda que, diante das especificidades das favelas brasileiras, é preciso adaptar mensagens da OMS. Por exemplo, no que se refere ao uso constante de água e sabão para evitar a contaminação e proliferação do vírus:

– Infelizmente nem todos têm água em casa na nossa realidade. Então pedimos que as pessoas que têm sejam solidárias e compartilhem sua água, para frear o vírus aqui – explica. – E na forma como são construídas as favelas no Brasil, é mais difícil lidar com a expansão do vírus. Além da água, são famílias grandes em casas pequenas. Fica difícil fazer o isolamento social. Precisamos de estratégias pra evitar a proliferação. É impossível isolar alguém numa casa com 10 pessoas e três cômodos – diz.

Como se não bastasse, depois de iniciado o trabalho, o grupo teve que passar a atuar em outra frente: o combate à fome.

– No meio desse processo, muitas pessoas perderam sua fonte de renda diária, onde conseguia manter suas necessidades mais básicas. Aí começou uma segunda frente, uma mobilização pela ampla solidariedade, para arrecadar cestas básicas e materiais de higiene e limpeza. Pouco a pouco temos conseguido receber as doações e ir aos lugares mais urgentes fazer essa distribuição, para dar o mínimo de dignidade a essas pessoas.

Mesmo diante dessa realidade, Raul é solidário também com as outras comunidades, Brasil afora.

– Quando a gente se afasta do Rio e da região Sudeste, há muitos grupos fazendo trabalhos impressionantes, mas que não têm a mesma visibilidade, e portanto não alcançam tantas pessoas – avalia, citando nominalmente três grupos de fora do Rio: Ruas (de Ceilândia, DF), Agência Solano Trindade, de Capão Redondo, SP; e Lá da Favelinha, de Belo Horizonte. – Busque ajudar quem está mais perto de você, esta é a provocação central – diz.

Na live, Raul aproveitou para agradecer a Reserva pelo envio de “muitas máscaras de tecido, que têm sido fundamentais pra nós nesse trabalho, não só pros voluntários, como pras pessoas atendidas”. Enxergando sempre o copo meio cheio, Raul afirma que o momento atual tem uma grande vantagem:

– Temos que aproveitar o momento em que a solidariedade está gritando e a desigualdade está sendo exposta de forma muito visível. Um Brasil que se enxerga melhor, se conecta melhor. Essa é uma potência da pandemia.

Apesar de todo o trabalho, Raul ainda divide o tempo brincando com os quatro filhos. E no momento está lendo “Minha história”, de Michelle Obama, que recomenda a todos.

Fonte: Blog 2min Reserva

 

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