O estado da arte na prevenção combinada e frente às epidemias é o tema do quarto dia de lives da ABIA


Com a mediação de Rajnia de Vito (assistente de pesquisa e comunicação SPW/ABIA), o quarto dia de lives da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) contou com a participação de Richard Parker (diretor-presidente da ABIA), Juan Carlos Raxach (assessor de projetos) e Vagner de Almeida (coordenador de projetos) como palestrantes.

Dessa vez o webnário teve como temática “O Estado da Arte na Prevenção (combinada) e na Promoção da Saúde frente às Epidemias” como parte do quarto dia do “Seminário HIV/AIDS em tempos de COVID-19 – Aprimorando o Debate III”. Afinal, como pensar a promoção da saúde frente a epidemia? Quais dilemas e questões na história da prevenção ao HIV/AIDS nos informam sobre o debate atual em relação à epidemia de COVID-19? E quais dilemas e questões do COVID-19 nos dão perspectiva sobre são a prevenção do HIV/AIDS? Foram esses e outros dilemas que os palestrantes se propuseram a debater via Zoom, para convidados, e canal institucional no YouTube para o público geral em todo o Brasil.

Pedagogia da Prevenção

Abrindo a apresentação Richard Parker trouxe importantes conceitos envolvidos com a chamada Pedagogia da prevenção como, por exemplo, o sexo mais seguro, a redução de danos e o empoderamentos das comunidades e das pessoas. Dividindo o que buscava falar em três partes, sua primeira abordagem centrou-se na “Prevenção como uma Prática Comunitária”. “Os primeiros conhecimentos da epidemia surgiram nas comunidades mais afetadas pela epidemia de HIV/AIDS, o que me parece uma percepção e abordagem perdida ao longo da epidemia”, afirmou Parker.

A politização da prevenção, na primeira década da epidemia, foi algo salutar para que o sexo seguro fosse incorporado como um exercício da solidariedade. “Durante alguns anos você nem sabia qual era o agente de infecção. Não existia testes para fazer naquela época porque não se tinha sequer isolado o vírus do HIV. Então tinha que praticar prevenção não só para se proteger, mas para proteger a comunidade”, explicou. Ainda segundo Parker, nessa época “usar camisinha era um ato político e de resistência da comunidade mais afetada pelo HIV”. Mas, para ele, sem seguida a prevenção perdeu seu eixo.

“Os experts em saúde pública se apropriaram da epidemia de HIV/AIDS. Eles trouxeram experimentos científicos e sanitários, mas foi o começo da instalação da educação bancários e biomedicalização da prevenção sobre as comunidades mais afetadas”.

Parte II: A Biomedicalização e seus Limites

Abordagens comportamentais, estruturais e biomédicas. Esses são os três elementos que explicam as questões biomedicalizantes dentro da epidemia de HIV/AIDS para Richard Parker, com vantagens e desvantagens. “A ideia da prevenção combinada foi justamente uma tentativa de resgatar alternativas à forte biomedicalização. Uma forma de se retornar aos paradigmas comportamentais e estruturais da primeira década. Mas ainda é um projeto incompleto, principalmente por falta de clareza sobre o modelo pedagógico e embasamento político”, contemporiza.

Isso propiciou uma confusão nas combinações, com a “insistência simplória de tecnocratas e suas ‘balas mágicas’, por falta de uma pedagogia”, critica.

Parte III: Para uma Pedagogia da Prevenção

Em seu último momento, Parker elucidou o que seria ideal para se resgatar boas práticas na questão. “Temos que voltar para as raízes da prevenção com luta política e mobilização comunitária”. E para ele isso só será possível se houver uma reinvenção do sexo mais seguro, mais alinhado as questões e realidades das comunidades no século 21: com alta tecnologia, fim do estigma, discriminação e preconceito, direitos humanos, trazendo lições da pedagogia do tratamento etc.

“Nós mesmos somos os maiores especialistas sobre as nossas sexualidades e não precisamos dos sociólogos para nos dizer o que fazer. A prática comunitária e a reinvenção de nossa prevenção e solidariedade é o mais importante para nossos tempos sombrios”, finaliza.

Arte e Ousadia

Em seguida, Vagner de Almeida – coordenador do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens – foi o segundo debatedor do dia. Em sua apresentação, Almeida resgatou importantes atividades da ABIA com a ousadia como protagonista das artes com foco na prevenção. “A ABIA começou nessas campanhas trabalhando com ousadia e sexualidade. Tudo que estamos passando nos dias de hoje, foi algo que mesmo em momentos de pouca transgressão, nós fazíamos. Acontecia de ter reações conservadoras e algumas inverdades, mas isso não nos abalou”, disse ele.

“Além disso, nossas ações visavam valorizar os corpos e a sexualidades como forma de ‘teu corpo te pertence e você faz o que quiser com ele’”, explicou. Isso pode ser comprovado na criação e produção dos Guias de Sexo mais Seguro encampados pelo Projeto Diversidade na ABIA. Voltado para populações estigmatizadas como HSH, travestis, transexuais e também mulheres cisgêneras (que se identificam com a forma como nasceram), Almeida enfatizou a relevância do material.

“As pessoas precisam e querem informação. E elas não encontram. Então resolvemos criar um material prático, com informações objetivas e linguagem acessível para que elas possam conhecer mais. São materiais ousados, mas com foco na prevenção”, apontou. Além disso, esses materiais contemplam ainda guias voltados para a prevenção das Hepatites Virais, das Infecções Sexualmente Transmissíveis, Terminologias médicas e Terminologias Sexuais, Comportamentais e Culturais – encontrados no site (hshjovem.abiaids.org.br) e também na sede da ABIA (no caso dos guias para HSH, Mulheres Cis, Mulheres Trans e Travestis).

“O objetivo desse material é combater o estigma, a discriminação, o preconceito e promover a diversidade”, pontua. E completa: “hoje em dia não há um guia que fale e dialogue de forma direta e inteligente com a sexualidade das pessoas”. Finalizando, Almeida ressaltou a construção histórica da ABIA no que tange à diversidade sexual e as pessoas que pela instituição passaram e ajudaram a enriquecer a trajetória. “Nós não podemos esquecer essas pessoas, muitas que aqui nem mais estão, e nem nos calarmos. Por isso não deixamos de falar com os fóruns da sociedade civil, nem com a juventude por meio de nosso site e da Fala Jovem e de todas as demais entrevistas que a nossa equipe por meio da Jéssica Marinho, Jean Pierry e Juan Carlos realizamos”, sintetizou em resposta ao questionamento de uma internauta via YouTube.

Promoção da Saúde

Esse foi o mote da fala de Juan Carlos Raxach, assessor de projetos da ABIA. Buscando trazer algo conceitual e ao mesmo tempo menos conceitual, ele trouxe rapidamente o que define a promoção da Saúde mediante a Carta de Ottawa e seus princípios e também o que se entende como Prevenção, preconizados a partir da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Prevenção Combinada.

“E para falar desses aspectos da vida podemos entender todos esses processos via Rio das Prevenções. O curso de altos e baixos de nossos métodos e aspectos biomédicos, comportamentais e estruturais até aqui”, disse Raxach sobre a ilustração que expunha didaticamente o surgimento de conceitos dos anos 80 até os dias atuais como abstinência sexual, redução de danos, camisinhas (interna/feminina e externa/masculina), PEP(Profilaxia pós-exposição), PrEP(Profilaxia pré-exposição), prevenção combinada entre outros.

Outro interessante momento de sua apresentação foi a “Caixa de Ferramentas”. A metáfora diz respeito ao conjunto de ações estruturais, biomédicos e comportamentais que devem (ou deveriam) estar à disposição dos indivíduos conforme suas práticas sexuais e bel prazer. A interface com o COVID-19 também ganhou espaço. “Todo mundo fala do novo normal e eu falo: já deveriam existir medidas que estivessem incorporadas nas pessoas e isso não acontece”, atesta.

Com um olhar atento as questões preventivas também fora do Brasil, Juan Carlos Raxach apresentou aos internautas um importante material criado por profissionais de saúde da Austrália que, de forma simples e objetiva, incide sobre orientações e medidas que permitam as pessoas manterem a prevenção e praticarem a redução de danos durante suas relações sexuais casuais. “A ABIA está adaptando esse material para a nossa realidade e redução de danos no Brasil, mas já temos esse material traduzido e publicado no site do Projeto Diversidade Sexual”, contou.

A riqueza do material para o assessor está no foco da não discriminação para com populações chaves e outros que praticam sexo casual e a preocupação com a saúde e prevenção dessas pessoas. “A mudança comportamental é muito difícil, principalmente quando temos questões estruturais. E a Biomedicina não vai resolver tudo. Não é por aí” alertou.

Finalizando, o médico e também psicoterapeuta afirma que o sucesso das novas tecnologias depende da continuidade das ações de base comunitária, “focadas na educação, na promoção do acesso, da adesão e na defesa dos direitos humanos e no combate ao estigma, discriminação e preconceito”.

 

Texto: Jean Pierry Oliveira

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