O dia delxs, por Vagner de Almeida


O Despertar da Cidadã!



Autor: Vagner de Almeida

SOU a menina que nasceu ontem em um corpo de menino

SOU a mulher que finge não ver o que está à minha volta
SOU aquela que busca a luz na escuridão, sou solidão no meio da multidão
SOU o resumo de tantas vidas em minha própria vida…
SOU simplesmente Eu em teus olhos e coração
Nasci como menino!
Cresci como um menino em um casulo feminino
Corri contra o tempo com botas de soldados armados
Combati leões e dragões no tempo que deveria ter observado a primavera da minha idade
Foram muitos murros em pontas de facas afiadas…
Menino! Comporte-se como menino!
Na minha casa macho é macho!
Homem não chora!
Mulherzinhas choram!
Eu já era uma mulher, menina, miúda
Corri contra o tempo e corri das pessoas
Sofri maus tratos físicos, psicológicos e resisti
Não sei se me fortaleci, mas sobrevivi
Mamãe rezava e me benzia
Papai batia e humilhava
Irmãos xingavam, caçoavam e alguns me usavam para seus prazeres pessoais
Irmãs escravizavam e me excluíam
Parentes condenavam, buliam e usavam como queriam
Vizinhos entre escárnio, tapas, risos e empurrões me apontavam como estranho ou estranha…
Tempo passou e passei a ser a estranha, a coisa, a vergonha
Cresci e vi gerações crescerem também
Vi mortes, cortes e brechas no sistema social
Faceei o desabrochar de tantos “Eus” esfacelados
Marquei pontos nas esquinas da vida e nas filas dos aflitos
Fui no enterro de desconhecidas como eu
Proibiram-me de chorar pelos meus
Saudades não consigo guardar, nem as feias ou bonitas
Lamento os medos e alegrias que me proibiram na vida
Cresci com a coragem camuflada no terror
Tinha medos, tenho medos, terei medos…
Durante a minha trajetória de vida serei uma fugitiva de mim mesma
Mas me encontro todas as vezes que me perco porque sou forte e sou rocha
Hoje quem sou?
Travesti, mulher, sim Senhor!
Revisitei minhas entranhas e de lá retirei a minha Alma
Incomodo?
Te vasculho?
Te embriago?
Te seduzo?
Te possuo?
Te espelho?
Não é o meu problema!
Assim, eu sou!
Livre como Fênix, as duras penas do sistema.
Meu nome?
Social ou de luta?
Suzette, Marilyn, ou como queiram me chamar na hora do prazer ou do deboche!
Social Maria da Penha, Mulher, Cidadã, Brasileira tal qual você.
Moralista, desarma-se e construa a sua própria vida
Como assim construí a minha
Você extremista, racista, homofóbico inconformado, escuta-me
É um ser lamentável
Necessito ir, pois a vida continua.
Não morro sem ver um Brasil que me respeite como travesti plena
Boa noite,
Bom dia,
Boa trajetória de vida.
Sou travesti, sou o Despertar da Cidadã Brasileira
Em memória de TODAS cidadãs que foram assassinadas e deletadas desse sistema social cruel
Sou resistência!
Sou Cidadã Brasileira!

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