Jovens participam de Oficina Regional de Prevenção Combinada em SP


Adentrar a realidade das juventudes e entender como a sexualidade, o sexo e todas as outras vertentes sociais (gênero, raça, comportamento, idades, culturas etc) relacionam-se com a questão da Prevenção Combinada. Esse foi o mote da “Oficina Regional de Prevenção Combinada com Jovens – Sudeste 2”, em São Paulo. Realizado de 07 à 09/11/17 o encontro teve como objetivo retirar incidências e bases construtivas para se trabalhar com as novas tecnologias de prevenção e as juventudes no contexto do HIV/AIDS. Organizado pelo Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/AIDS e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, a Oficina foi capitaneada pelos representantes do órgão federal Diego Callisto, Carina Bernardes e Claudia Costa. Após o acolhimento e apresentação de todxs, a Oficina cedeu espaço para que os participantes pudessem iniciar debates acerca da temática “Juventude, prevenção e sexualidade”, no primeiro dia de atividades, entre eles os assistentes do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), Jean Pierry Oliveira e Jéssica Marinho.

“Ouvimos muito o discurso de que os jovens estão pegando HIV porque não viram a cara do Cazuza. Ou que se pegar HIV é só tomar um remedinho que resolve. E a gente sabe que não é assim. O HIV e a AIDS está crescendo hoje também muito por conta do debate sobre sexualidade e IST’s (Infecções Sexualmente Transmissíveis) terem sido retirados da escola, por força de setores conservadores”, afirmou o jovem ativista e agente de saúde e prevenção de Piracicaba, no interior de SP, Cristiano Vitorino. Em seguida, foi proposto uma dinâmica de grupo para que os jovens pudessem “relaxar” e refletir. Já integrados a Oficina e entre si, os jovens formaram uma roda e sentaram-se ao chão. No meio da roda um só assunto: a sexualidade e seus desdobramentos – internos e externos. O compartilhamento de experiências de diversas histórias, contextos, raças e etnias, idades e regiões diversificou os olhares e enriqueceu os discursos. “É preciso falar de sexualidade e é importante que isso comece na escola. No Rio de Janeiro não podemos distribuir camisinha dentro das escolas porque dizem que estamos incentivando os jovens a fazer sexo. Isso é ridículo”, bradou o agente de saúde da Prefeitura do Rio de Janeiro e estudante do ensino médio Patrick Medeiros sobre a atual gestão de Marcelo Crivella na capital. Outro momento interessante da Roda de conversa foi sobre a autoaceitação, a depressão e a transexualidade. Para Stefhany Cardoso, estudante de Direito e mulher transexual, o caminho não foi nada fácil. Oriunda do interior de Pernambuco ela relatou que aos nove anos reconheceu-se como trans e “eu tive que sair da casa dos meus pais. Fui morar com um tio. E aos 13 anos eu vim para São Paulo e até eu tirar meu nome social foram dois anos e meio, uma luta. Eu cheguei a escrever uma carta de próprio punho a juíza dizendo que eu iria me matar se ela não me concedesse o nome social”, contou.

Indígena da tribo Guarani e envolvido com as questões mais pertinentes de luta pelo seu povo, o jovem Thiago Henrique pediu a palavra e emocionou a todos com sua mensagem. “Eu acho que temos que ser mais coletivos e menos partido. Precisamos olhar mais pelo outro e termos consciência de que o que eu passei ontem pode acabar ajudando e impedindo que alguém passe por isso amanhã, como a automutilação e o suicídio, que me deixa triste e que eu também vejo muito entre nosso povo”. E completou: “o meu povo resistiu e resiste há mais de 500 anos só com as palavras. Nós não temos a escrita. Porque? Porque nossa palavra ninguém rasga, ninguém quebra e ninguém muda como o homem branco sempre fez. Nossa palavra tem força, nós jovens temos que ser parte disso e fazer a diferença para começarmos a ter o lugar que queremos”.

Prevenção Combinada em HIV/AIDS: O que é?

A segunda metade da Oficina Regional de Prevenção Combinada com Jovens teve início com um apanhado da resposta brasileira ao HIV/AIDS com apresentação de Diego Callisto. Sem desconsiderar os agentes históricos dessa construção, Callisto citou importantes pessoas do movimento social como Kátia Edmundo (CEDAPS) e Veriano Terto Jr, vice-presidente da ABIA, além da própria instituição fundada por Herbert de Sousa (Betinho), no que tange a construção do tema prevenção combinada. “Prevenção combinada é essencial para que se alcance a meta 90/90/90 em 2020. Isso significa que a proposta formulada pela UNAIDS (agência da ONU para a AIDS) e que países como o Brasil são signatários, tem que testar 90% das pessoas para o HIV, dessas, 90% estarem em tratamento e dessas, 90% terem sua carga viral indetectável”, resumiu o assessor técnico da Área de Prevenção.  Além disso, a apresentação de Callisto evidenciou a relação das vulnerabilidades com a prevenção combinada sob três estágios:

  • Vulnerabilidade programática
  • Vulnerabilidade Social
  • Vulnerabilidade Individual

E também sob as dimensões da Prevenção Combinada:

  • Dimensão Estrutural
  • Dimensão Comportamental
  • Dimensão Biomédica

Profilaxia Pós-exposição (PEP) e Profilaxia Pré-exposição (PrEP) também foram dois assuntos abordados e ressaltados por todos os participantes como importantes formas de prevenção, porém ambos pouco visibilizados nas unidades de saúde e entre os próprios profissionais da saúde.

 

2º Dia (08/11)

Já o segundo dia de atividades da Oficina Regional de Prevenção Combinada com Jovens, em São Paulo, iniciou-se com uma dinâmica comandada por Claudia Costa do Ministério da Saúde no contexto da prevenção. Isto é, os participantes foram divididos em seis diferentes grupos e cada um deles foi responsável por elucidar e criar conjuntamente uma mandala com diversas possibilidades de profilaxia e barreiras no que tange ao HIV, AIDS, IST’s etc. Estratégias como prevenção a coinfecção do HIV, promover a adesão ao tratamento, PEP, saúde mental, relação amistosa entre médico e paciente, entre outras estratégias foram destacadas pelos grupos de jovens e adolescentes.

Em seguida, foi dada a oportunidade de cada jovem representante de organização ou movimento social poder falar um pouco acerca de sua ONG e atuação em cada projeto. Jean Pierry Oliveira e Jéssica Marinho, assistentes do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens, da ABIA, expuseram o trabalho da instituição e do projeto coordenado por Vagner de Almeida. “Nosso projeto é originário do HSH de 1993 e, atualmente, temos um novo site onde reunimos todas as nossas ações com os mais diversos jovens, em diferentes contextos, gerações, gênero, raça e sexualidade. Além disso, produzimos diversas cartilhas, filmes, rodas de conversa, ensaios fotográficos e ações externas também”, resumiu Marinho. “Também atuamos na ABIA, como um todo, sobre a questão de Sexualidade e Política, medicamentos e incidências políticas sobre pessoas vivendo e convivendo com HIV, de religiões e etc”, completou Jean Pierry Oliveira deixando claro que a instituição nasceu de uma iniciativa de Herbert de Sousa, o Betinho, em 1987.

 

Teatro do Oprimido

Após retornarem do almoço, os jovens foram divididos em quatro diferentes grupos e o objetivo da nova dinâmica era criar esquetes teatrais e encená-las de acordo com os contextos de prevenção, estigma, preconceito, discriminação e vulnerabilidades anteriormente debatidos. O Grupo 1 contou uma história que versava sobre má atendimento de profissionais da saúde em clínicas públicas e a transfobia praticada pelo desrespeito ao nome social de travestis e transexuais, além do estigma sofrido por trabalhadoras (es) do sexo no SUS.  Já o Grupo 2 utilizou a dificuldade de atendimento de jovens e adolescentes para realizarem testes rápidos como pano de fundo e provocou os demais presentes sobre como reagir em situações do tipo.

Com relação ao Grupo 3 a esquete emocionou. Cada integrante simulou situações vividas e marcantes em suas trajetórias tal qual em um pequeno monólogo no que diz respeito a homofobia, racismo, preconceito contra indígenas, machismo e outros. No final, um dos jovens integrantes da esquete cantou “Não Recomendados”, música-título de um grupo de jovens cantores não-binários de MPB, arrancando lágrimas dos colegas que assistiam. Por fim, o Grupo 4 trouxe à tona a discriminação sofrida por pessoas transexuais e indígenas para se colocar no mercado de trabalho. O segundo dia da Oficina encerrou-se com uma confraternização pelo aniversário do jovem ativista carioca Ivan Monsores.

 

3º Dia (09/11)

 

Mais curto do que os dias anteriores, porém, não menos importante em atividades, o terceiro e último dia da Oficina Regional de Prevenção Combinada com Jovens deu espaço para a construção de uma “Árvore de Problemas e Possibilidades”. A ação consistia em separar os jovens conforme seus estados, capitais e regiões metropolitanas, litorâneas ou interioranas de origem, respectivamente, para que cada sub-grupo pudesse estipular e traçar metas, objetivos e identificar problemas, além de sugerir soluções, para serem trabalhadas em suas áreas.

Dessa maneira, cada sub-grupo deslocou-se para um espaço do salão de atividades e juntos desenvolveram seus apontamentos, reconhecendo as especificidades, potencialidades e dificuldades encontradas. Logo as diferenças se anunciaram quando a atividade cessou e cada grupo teve que apresentar suas proposições. Em linhas gerais, pode-se dizer que as dificuldades encontradas pelos jovens moradores de São Paulo (capital e outras regiões) giraram em torno da falta de informação, dificuldade do acesso, conservadorismo e despreparo de profissionais de saúde em suas redes de atuação para lidar com questões acerca da prevenção combinada, HIV e AIDS. Em contrapartida pelo lado do Rio de Janeiro do evento, com a deflagrada situação de crise econômica, financeira e social enfrentada no dia a dia, cariocas e fluminenses – em linhas gerais – citaram a falta de recursos (humanos e materiais), o conservadorismo, o descuido e descaso com a saúde pública e a falta de diálogo com os três poderes como entraves de melhoras de ações de saúde. Já no meio da tarde a atividade concentrou-se em proposições que os mesmos sub-grupos e seus representantes deveriam fazer como construção de pauta que possa ser levada aos respectivos setores de cada estado para, futuramente, serem avaliados mutuamente como forma de possível implementação ou adaptação em contextos locais.

A “Oficina Regional de Prevenção Combinada com Jovens – Sudeste 2” encerrou-se com uma grande confraternização entre os jovens e adolescentes e a expectativa que todos os aprendizados sejam desenvolvidos e praticados em prol de uma saúde mais integral em seus eixos e populações alcançadas. Além disso, ficou acertado que cada jovem deveria preencher um quadro de intervenções locais em prevenção combinada e encaminhar o mesmo por e-mail até o dia 24/11 para a construção de uma agenda peculiar para cada território.

 

Texto: Jean Pierry e Jéssica Marinho

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