Jovem, homossexual e evangélico: conheça a história do estudante Luiz Felipe em entrevista ao Projeto Diversidade Sexual na ABIA


Dias de luta. Dias de glória. No pain, no gain (sem dor, sem ganho). É mais ou menos assim, oscilando entre altos e baixos, dia após dia que Luiz Felipe da Silva enxerga os obstáculos e as conquistas e objetivos traçados em sua vida. Aos 27 anos, o morador de Xavantes, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense tem uma interessante história de vida. Apesar da timidez, suas opiniões são claras e firmes. Sincero, não se furtou de se posicionar acerca de diversos assuntos, tais como: religião, sexualidade e família, prevenção, conservadorismo, LGBTs, HIV/AIDS entre outros.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

 

Belford Roxo

“Sempre morei em Belford Roxo. (No bairro) Xavantes, meia hora do centro. Moro com minha mãe e meu irmão mais novo, num quintal de família onde mora tios, primos, irmãos. Tipo, é só um bairro da periferia mais tem muita gente que tem dinheiro e vive bem lá. Mas também tem muita gente perdida pras drogas.

Lá é bem difícil serviço público, é quase impossível. Pra você ter uma consulta você demora quase um mês, dois meses. Pra uma consulta: só pra passar pelo médico. Sem contar a distância, de não me aceitarem em trabalho, por morar lá. Ou até mais recente do Uber não entrar no bairro porque Belford Roxo é área perigosa”.

Família, Sexualidade e Religião

“Hoje em dia (minha relação com a família) é bem melhor. Mas no começo foi barra pesada. Porque minha mãe é da igreja evangélica e eu ia desde muito novo e minha vida toda foi dentro da igreja. E depois de um certo tempo eu fui obrigado a me assumir. Minha irmã chegou na minha mãe e falou que viu coisas no meu computador, conversas, enfim. E minha mãe veio me perguntar o que que tava acontecendo.

Eu falei pra ela que era realmente isso. Que eu era gay e ela falou assim, que não tinha “jogado pedra no telhado dos outros”, “que o telhado dela era de vidro”, “que não tinha criado o filho pra ser gay”, aquelas coisas que todo mundo escuta. Aí ficamos (eu e minha mãe) bastante tempo sem se falar. Uns dois meses. Mas hoje em dia é de boa.

O que acontece: eu namorei uma menina por três anos dos meus 13 aos 16 anos. E nesses três anos (quando) passava um menino bonito na rua me chamava atenção, eu achava aquilo um máximo – homens, entendeu. Eu achava um máximo e eu tinha essa curiosidade. Eu falava “gente não é possível que eu tenho interesse em garotos namorando uma garota”. Aí terminei, conheci amigos que moravam no meu bairro, outros meninos e comecei a andar com eles. Fui aprendendo as coisas assim, vivendo.

(Isso) na época de Orkut. E a escola tinha uma comunidade (na rede social) e essa história de comunidade rolava fofoca e rolava tudo. Tiraram um print da minha página inicial do Orkut, circularam minha foto – era uma escola estadual enorme – e circularam a foto de uma comunidade escrita “jogo do add gay”. E botaram assim: “será que ele é? Comentem”. Um monte de comentários (surgiram). Mas eles fizeram isso porque? Porque eu tinha vergonha. Eu era muito fechado. Eu não era assumido com medo de alguém perceber essas coisas. E minha irmã viu isso porque ela estudava na mesma escola.

Aí ela pegou, foi em casa e encheu o saco da minha mãe. Porque eu sempre fui de ficar em casa. Até hoje. Nessa época eu tava conhecendo pessoas então ficava bastante em rua, ficava na casa de amigos e todos eram gays. E meu irmão conhecia as amigas de um amigo meu de infância que era gay. E ele ficavam lá em casa também. E teve uma vez que minha mãe perguntou pra ele se ele era gay também. Ela falou assim “Thiago, me falaram que você é gay. Você é gay?”. E ele falou assim “não. Sou não senhora”. E ela “tem certeza?”, e ele: “tenho”.

Aí tá, saímos de lá e ele falou “Felipe eu não falei por conta de você. Porque você não é assumido. É mais por conta de você”. Sendo que meu irmão foi numa festa com as amigas dele e viu ele rebolando de tudo quanto é jeito. Aí chegou em casa falando assim “não falei que ele era viado”. Aí minha mãe tem um ódio mortal dele até hoje. Se passaram mais de 12 anos. Isso (ela acha que ele me influenciou), mas eu já falei pra ela que não tem nada a ver. Aí enfim, passou isso tudo, minha irmã contou pra minha mãe e eu fui passar um fim de semana fora – fui viajar com uns amigos meus pra Rio das Ostras.

Minha irmã entra no meu computador que só eu tinha a senha – não sei como é que ela descobriu – e mostrou tudo pra minha mãe: fotos, conversas de MSN, vídeo pornô de homem. Tudo que tinha que mostrar. Aí eu cheguei na segunda feira de madrugada e minha mãe me acorda 06h00 da manhã e fala “Felipe, você tem nada pra me falar não?”. E eu disse: “não. Tá maluca?! Uma hora dessas”. Ela “tem certeza?”, eu disse “tenho”. E ficou nisso o dia todo. O dia todo. Enchendo o saco. Aí teve uma hora que eu falei “se é o que você tá pensando então é verdade”.

Aí ela começou a chorar, começou a chorar e falou: “Felipe, eu esqueci que me telhado era de vidro porque eu falei tanto mal do seu primo, judiei tanto dele e hoje eu tenho um em casa. Eu não queria isso pra você” falou – eu tenho um primo que é mais velho que eu, tem uns 40 anos. E quando ele era mais novo – ele é filho da mulher do meu falecido tio – meu tio não podia bater nele, por não ser pai dele, então juntava todo mundo (pra falar dele). E chegou num ponto que ela falou assim: “A partir de hoje a única coisa que eu tenho pra te dar é comida. Se você quer roupinha nova, dinheiro e qualquer outra coisa você vai ter que comprar”. Então foi por isso que eu comecei a trabalhar muito cedo, com 16 anos.

Minha mãe é fogo cara (risos). Ela falou assim ‘a única coisa que quero que você faça, pra ninguém ficar falando da sua vida, é pedir desligamento da igreja. Eu sou batizado na igreja e ela falou ‘o que você fizer depois disso é por sua conta. Ninguém tem o direito de apontar o dedo pra você. E mesmo se apontar vai arrumar briga comigo’. Mas minha fé não foi abalada por conta disso, porque eu sei o que eu vivo, eu sei que cada um tem a sua fé, tem a sua religião, mas eu não consigo deixar de gostar.

Eu sei que tem muita coisa errada que fazem dentro da religião, mas é uma coisa que eu vou levar pra vida. Não foi problema (ser gay e ser da igreja). Até porque eu cantava na igreja – hoje em dia não. Então sempre me chamavam pra cantar, entendeu. Pessoas sabendo falavam assim pra mim ‘Felipe eu não quero saber do que você sente, do que você pratica, mesmo sabendo o que tá na Bíblia. Quero saber do que você acha, do que você pensa, do que você fala, da sua palavra, do que você passa para as pessoas’. Então muitas pessoas me chamavam, realmente, pra cantar na igreja. Mesmo depois de eu ter me assumido.

Cara, as outras pessoas (da família) não falaram nada. Afetaram mais meus tios porque meus tios sempre foram muito ‘ogros’, aquele povo mais antigo. E esse meu tio que é padrasto desse meu primo (gay) é o que mais ficou afetado. De falar que não queria pessoa nenhuma do sexo masculino lá em casa. E minha mãe também no começo falava isso. Até amigos meus heteros, de criança, lá ela duvidava. Aí no começo rolava muito essa guerrinha de pode entrar, não pode entrar. Muitas vezes eu acatei e fiquei quieto, mas outras não.

Com ela não (sobre ter ficado alguma mágoa com a irmã). Mas com a minha mãe sim. Até hoje. Tipo, tem coisas que ela me falou que me magoou bastante. Eu quase não falo isso pra ninguém. Mas foi um aprendizado pra crescer, entendeu; porque eu era realmente mimado, tinha tudo que eu queria, na hora que eu queria. E se isso não tivesse acontecido eu não sei se teria amadurecido. Sim (hoje nos damos bem), moramos na mesma casa, do mesmo jeito que era. Diego (meu namorado) vai lá normal, trata muito bem, mas antes ela falava ‘qualquer rolo que você tiver, qualquer lance deixa do portão pra fora. Não quero nem conhecer’.

Hoje quando ele (Diego) vai lá o pessoal perturba. Sábado de carnaval foi aniversário da minha mãe, aí na sexta Diego foi pra lá e minha mãe tava sentada na cama, Diego na minha cama e meu irmão com a mulher dele na sala. Aí ele foi e falou assim ‘ué, só vai dar atenção pro seu genro e vai dar atenção pra sua nora, não?’. Tipo, rola essas coisas, entendeu? Hoje em dia é super de boa’.

Lideranças religiosas conservadoras na política

“Sei que hoje em dia tudo virou política, mas religião é religião e política é política. Não tem que se juntar. De nenhuma maneira. (Denigrem) muita coisa (a imagem dos demais religiosos). Eles praticam (uma coisa) e não vive. Cobram e não vivem. Tem muitos pastores grandes que eu conheço – tem muito tempo que eu não vou na igreja – que tão ali não é nem pela fé. É pelo dinheiro que estão ganhando. As pessoas acreditam tanto que acabam fazendo as coisas que eles querem pra vê se realmente vai prosperar. Eles usam disso pra se aproveitar das pessoas. Muitos – não todos”.

Igrejas inclusivas

“Cara eu super concordo. Já fui algumas vezes nas igrejas contemporâneas e as pessoas só estão ali pra cultuar Deus. Só tão ali com o propósito de se reconectar com Deus, coisa que as igrejas normais acham que a gente não pode. Eu acho super legal a iniciativa deles”.

LGBTs na mídia e Representatividade

“Eu acho que realmente precisamos de representantes em todos os meios, é necessário, mas muitas das pessoas de mídia usam isso pra se beneficiar. Porque hoje em dia o maior público, o maior mercado é o gay. Você quer realmente levantar dinheiro você pode fazer alguma coisa diretamente pro público gay que você vai conseguir alguma coisa. Eu acho que as pessoas se aproveitam disso. Usam isso como escada.

Não (tinha nenhuma representatividade quando criança). Aí tá tendo um exemplo lá em casa que é o meu sobrinho ele tem, acho que 16 anos, e ele tá se descobrindo (gay) agora. Tá se descobrindo agora e pelo visto minha mãe não mudou porque ela tá tendo as mesmas reações de quando aconteceu comigo lá atrás. E eu conversei com ele – quando ele contou pra minha mãe. Eu falei assim ‘Mateus, se você tiver qualquer coisa pra conversar, chega pra mim e conversa comigo. Porque hoje em dia você tem a mim, tem Renato que é meu primo pra poder conversar. Na minha época não tinha ninguém. Eu tive que brigar com tudo e todos pra sobreviver. Eu não tive quem me segurar, eu não tive pra onde ir e pra conversar com alguém. Então o que acontecer com você, você pode falar comigo. Porque tudo que você tá passando eu já passei. E sua avó tá do mesmo jeito que era comigo’.

Eu fiquei quase uma semana sem aparecer em casa, aí cheguei em casa e ela (minha mãe) falou assim: ‘conversa com Mateus porque as pessoas estão falando dele. Que ele está fazendo escândalo’. Aí eu falei ‘ele tá fazendo aquilo que eu fazia. Então não adianta você querer mudar ele porque não vai mudar. É o jeito dele’. Ela botou o garoto no psicológo e acha que o psicólogo vai mudar. Não vai adiantar, é dele. E pedi pra parar de querer brigar. ‘Deixa ele viver a vida dele e só cobra estudo. Que ele continue estudando’. Porque eu perdi muito tempo da minha vida tentando me colocar e acabei deixando isso passar: estudo e essas coisas.

Hipersexualização entre LGBT’s

“Muitas pessoas pedem pra ficar – agora não né – pediam pra ficar comigo por conta justamente de achar que meu pau é absurdo. Eu tenho pavor disso. Se eu vejo que a pessoa tá nessa intenção, não quer criar um papo ou uma coisa assim, eu caio fora. É já bloqueada. Sim (afetava minha autoestima). Até com mulher mesmo, não é só no mundo gay. Mulheres também pensam assim. Eu escuto ‘nossa que negão, vai me machucar’ e não sei o que. ‘Quero ver o tamanho disso’. Então não é só no mundo gay.

Eu já escutei pessoas falando assim: ‘porra cara um negão desses’. Negro não aceita que negro seja gay. Gay tem que ser branco, gay tem que ser baixo, eles desenham o gay de outro jeito. Aquele playboyzinho. Desse tipo. Negro não pode ser gay. Eu já arrumei briga por causa disso. Já ouvi de heterossexuais falarem assim ‘porra um negão desses, um viadão’. Tipo, se falar de boa, conversando ‘cara tu é gay e não sei o que’, ‘não parece’, mas não. Foi de modo ofensivo. E eu não gosto disso. As pessoas gostam de ofender a outra assim de graça”.

Relacionamento e Relacionamento Afro centrado

“Olha, eu acho que é a mesma coisa (que se relacionar com pessoas negras). A única coisa que muda é a forma de pensar. Cada um tem seu jeito, sendo branco, sendo negro, enfim. Mas eu passo por algumas coisas por namorar por ele. Tipo assim, a maioria dos meus amigos são negros, não todos, mas metade deles sim. Teve uma vez que encontramos um amigo meu, apresentei eles (e) falei que era meu namorado – isso no carnaval – ele acabou de virar de costa e meu amigo simplesmente virou pra mim e perguntou ‘Nossa Felipe, (um) branco?’. Como se fosse a maior bizarrice do mundo”.

Ele escuta essas coisas que eu sei que ele fica chateado. Quando fala de palmitagem então meu filho aí eu já olho pra cara dele assim e meu Deus (risos) do céu. Cara, qualquer lugar que eu for, gay ou hetero, de negros tipo a Batekoo: se eu for na Batekoo com ele, meu filho, acabou. Eles levam muito a sério isso. Mas isso não me afeta não.

A gente gosta de pessoas. Às vezes eu pego um preto filho da puta. Às vezes eu pego um branco filho da puta. Então não podemos botar na balança, entendeu?”

Prevenção

A gente conversa muito sobre isso porque eu e ele não usamos camisinha. Pelo tempo que já temos de relacionamento. E eu falei pra ele ‘mesmo que a gente não tenha um relacionamento aberto eu acho legal, e nem é porque tô desconfiando de alguma coisa, a gente sempre fazer um exame’. Eu faço de ano em ano, eu sempre faço nas férias. Porque não dá pra fazer em seis meses. Porque tu sabe que o processo lá de médico onde eu moro é super lento. Aí eu faço sempre nas minhas férias.

Porque a gente precisa saber e nem é por questão de tá com medo de nada não. Mas tem que saber, não só de DST* (hoje IST), mas glicose e essas coisas todas. E aí a gente conversa sobre isso nesse ponto. Já ouvi falar (de PEP e PrEP). Eu acho isso (que pode tendenciar as pessoas a não usarem camisinha) porque as pessoas já não costumam usar camisinha”.

Infecção entre Jovens

“Eu acho – e tô falando de mim e não de outras pessoas. Quando eu não namoro eu uso, mas é uma coisa que me incomoda muito. Pra eu sair com uma pessoa eu tenho que comprar uma camisinha específica porque ou me aperta demais, entendeu.

Eu acho que sim (as pessoas perderam o medo da camisinha). As pessoas não querem mais saber de muita coisa. Não estão preocupadas muito com a vida. Eu perdi um amigo muito novo, com 23 anos com HIV. E meu amigo não fazia exames, fazia quando estava passando mal. Eu acho que (o governo) teria que incentivar mais. Tem muito pouco propaganda na televisão, anúncios em aplicativos, internet. Tem muito pouco pra informar mesmo.

(Sobre a campanha de abstinência sexual para jovens) eu acho que você inibir a vontade sexual das pessoas. Eu não acho que isso adiantaria alguma coisa. As pessoas sentem desejo, as pessoas sentem vontade e não tem necessidade disso. Sim, com certeza (é uma campanha moralista). Eles querem de alguma maneira fazer do jeito deles. E acabar com tudo que é o que eles estão fazendo aos poucos”.

Importância do Projeto

Eu acho que teriam que ter mais ONGs porque muitas pessoas que são soropositivas elas não tem pra onde correr, não tem com quem conversar, não tem onde desabafar, não tem onde procurar instruções. Eu acho que deveria sim aumentar as ONGs para as pessoas terem mais oportunidades, mesmo que tenham vergonha de ir em uma vai em outra”.

Trabalho e Estudo

“Sim, eu trabalho e faço curso. Eu fazia faculdade de Logística, mas eu tranquei por conta de N motivos – mas eu vou voltar no meio do ano. Eu acho que eu parei de sacanagem mesmo porque eu não tive apoio em casa, nenhum. A única coisa que eu tinha que fazer quando era mais novo era trabalhar pra me sustentar, mesmo morando na casa da minha mãe. Era tipo ‘eu preciso disso pra mostra que não sou igual aos outros’. Aí a única maneira que eu tinha de me sustentar e não depender dela era trabalhando. E eu foquei nisso. E acabei deixando de lado os estudos.

Voltei, concluí meu ensino médio e depois parei e não quis estudar. Continuei trabalhando e dois anos atrás comecei a fazer cursos. Esse curso atual é tipo um complemento da faculdade. Pensei ‘vou fazer pra não ficar parado um curso rápido pra depois quando eu voltar pelo menos me ligar nas coisas que estão acontecendo’. Na verdade eu não queria. Fiz Logística porque era curta (duração). Mas o que eu queria fazer mesmo era Contabilidade. Queria primeiro passar pela Logística, que tem muitas matérias de Contabilidade, pra depois fazer Contabilidade”.

Futuro

“Eu quero poder construir uma família, quero me formar, conseguir uma estabilidade financeira –  não sei quanto tempo vai demorar, mas quero isso. Quero um filho e acho que só, por enquanto”.

 

Texto e Foto: Jean Pierry Oliveira

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