
Desde o fim de 2019 que o mundo não é mais o mesmo. O que começou num mercado de animais em Wuhan, na China, se estendeu para todo o continente asiático e – por força da globalização – se alastrou para todo os cantos do planeta. Seja entre aqueles lugares mais afetados ou naqueles menos afetados, a verdade é que tivemos que viver como numa ficção científica: luvas, álcool em gel, limpeza constante de mãos e superfícies, máscaras, home office, proibição de aglomeração, lockdown.
Além de adotarmos novos hábitos e conhecermos novas palavras cruciais para o “novo normal do dia a dia”, para algumas pessoas essas medidas não são tão novas assim. Pelo menos para André Rangel, jovem da zona oeste do Rio de Janeiro. Paciente renal crônico, o que faz dele, portanto, uma pessoa do grupo de risco para o coronavírus, o carioca afirmou que “O isolamento social devido ao Covid foi bem tranquilo pra mim, pois sou renal crônico e por causa desse problema de saúde eu já estava em isolamento”.
Vivendo uma nova fase de vida após casar, Rangel falou sobre sua relação com os familiares – antes de sair de casa -, sobre os desafios de morar na Zona Oeste (em comparação com a Baixada Fluminense onde vivia), prevenção, relacionamento e futuro em mais uma edição do Fala Jovem do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Diretos entre Jovens da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA).
Confira a entrevista abaixo:
Apresentação
1 -Nome completo
R: André Luís Rangel de Souza.
2 – Você reside em Jacarepaguá, na Zona Oeste. Quais os principais desafios de morar nesta região?
R: Moro no Anil em Jacarepaguá, pra mim o principal desafio da Zona Oeste é viver pagando taxas pro poder paralelo (milícia). Eu não tenho nenhum comércio pra isso, mas acabo pagando caro no pão, gás, frutas, legumes, cesta básica entre outros, pois tudo é repassado para quem mora por aqui.
3 – Como é a relação com sua família? Mora com eles?
R: Minha relação com a minha família sempre foi bem distante. Hoje em dia não moro mais com meus pais, (mas) quando morava era difícil por que eles são muito ignorantes de cultura e tal, então tudo que eu falava eles não entendiam e reagiram mal. Por isso (as) conversas eram muito difíceis (e) nunca terminava bem, mas os amo e a gente vai (sic) vivendo bem conforme conseguimos.
4 – Sobre a pandemia, de que forma o isolamento social causado pelo coronavírus afeta ou já afetou sua saúde mental? E o que tem feito para distrair a mente e evitar os gatilhos psicológicos?
R: O isolamento social devido ao Covid foi bem tranquilo pra mim, pois sou renal crônico e por causa desse problema de saúde eu já estava em isolamento. O que eu fiz pra me distrair foi o de sempre: ler livros, ver series, filmes, e fazer vários vídeos chamadas com amigos que também estão em isolamento.
5 – Como você avalia o combate ao coronavírus em sua cidade?
R: Em relação ao combate ao Covid eu vi muita falta de empatia, ao mesmo tempo em que os casos aumentavam. Os bares, casas de shows e praias também lotavam, as pessoas não seguem nem o mínimo pedido pela OMS (Organização Mundial da Saúde), aquilo que todos sabem: usar máscara, álcool em gel e evitar aglomeração. No meu caso isso de lavar a mãos toda hora e máscara é bem normal, pois já fazia com frequência.
Relacionamento e Prevenção
6 – Sobre a questão da prevenção, você tinha abertura para conversar isso dentro de casa? Ou o assunto era tabu? Quando tinha dúvidas ou dilemas nesse sentido, como buscava resolvê-los?
R: Sobre a prevenção dentro de casa era um pouco difícil. Meus pais são dois idosos, acima de 65 (anos) e eu falava muito sobre máscara, lavar as mãos e eles até escutavam, mas praticavam pouco (pois) não acreditavam muito no vírus. Agora estão um pouco melhor em relação a isso. Mas quando não aceitavam os meus conselhos, (eu) alegava que eram grupo de risco – eles e eu também sou – aí eles entendiam melhor.
7 – Jovens de 15 a 29 anos são grupos populacionais, atualmente, que lideram os índices de infecção por HIV/AIDS no Brasil. Ao mesmo tempo, nunca se teve tanto acesso às informações e outras tecnologias. Em sua opinião, o que faz com que a juventude se infecte tanto por HIV?
R: Entre outros, acredito que um deles é achar que não vai pegar, achar que só acontece com o outro. E um outro motivo é mesmo sabendo que não tem cura, mas tem tratamento, sabe que dá pra viver com o vírus.
8 – A Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) trabalha, bem como o Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens, envolvida em questões do HIV/AIDS, prevenção, direitos humanos e justiça social para com populações vulneráveis (soropositivos, LGBTs, comunidades, jovens, negros, mulheres etc). Você considera que esses tipos de ações são importantes? Por quê?
R: Sim, são de suma importância, pois esses grupos são extremamente vulneráveis e precisam de ajuda física e psicológica para combater o vírus da Aids.
Futuro
9 – Acredita que sairemos diferentes e que tiraremos lições importantes para o mundo pós-pandemia?
R: Acredito que sim, sairemos diferentes, mas que não aprendemos muito com a pandemia. Apesar de ser um evento mundial em que afetou todos, pouco se aprendeu.
10 – Qual sua expectativa para a vacinação contra o coronavírus no Brasil? O que pretende fazer assim que for vacinado e que agora não pode?
R: A minha expectativa para a vacinação no Brasil é moderada. Sei que vai demorar, mas vai chegar mesmo eu sendo do grupo de risco, pois temos um governo federal que não é muito a favor da vacina. Mas devido à pressão da população vamos conseguir. O que pretendo fazer após ser vacinado acho que todo mundo quer: aglomerar com os amigos, mas só depois das 2 doses claro.
11 – Qual sua perspectiva para o futuro?
R: Minha perspectiva para o futuro é a melhor possível, quero voltar a cursar a faculdade que parei, voltar a trabalhar e (fazer) tudo que foi parado pela pandemia.
Texto: Jean Pierry Oliveira
Foto: Arquivo pessoal