Coordenadores do Projeto Diversidade falam da importância do novo Guia de Sexo mais Seguro sobre ISTs


Neste bate-papo com Vagner de Almeida e Juan Carlos Raxach, respectivamente coordenador e assessor do Projeto Diversidade Sexual, conseguimos compreender a importância da discussão mais aprofundada sobre as infecções sexualmente transmissíveis. A conversa foi pautada através do novo Guia de Sexo mais Seguro – Prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis, lançado recentemente pelo projeto.

O guia traz informações online sobre a prevenção e o tratamento das infecções sexualmente transmissíveis como a sífilis e gonorreia. O lançamento faz parte do segundo módulo que compõem o Guia de Sexo mais Seguro, que já teve suas versões em HIV/AIDS subdivididas para as populações chaves de HSH e mulheres cis.

Leia a entrevista completa abaixo.

 

Qual é a inovação que o Projeto Diversidade Sexual oferece com o Guia do Sexo mais Seguro – Prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis?

 

Vagner de Almeida —Inovar. Eu creio que a gente não consegue fazer mais nada novo então nós estamos recriando, repaginando as ideias do passado que nós tínhamos pensado já ter superado, que a sociedade já tivesse aprendido as lições. E o que nós vemos principalmente no presente, no contexto atual é esse imenso retrocesso. Então essa inovação que às vezes falamos, na verdade, nós só estamos repaginando ideias que já foram feitas lá atrás. E como nós temos observado também o grande número de pessoas se infectando sejam elas jovens, idosos, adultos, pessoas que não tem conseguido dialogar sexualidade, gênero e saúde dentro de suas casas, em seus grupos sociais num coletivo mais amplo. Então eu creio que a ABIA e o Projeto Diversidade Sexual voltam a retomar os patamares históricos da epidemia de HIV/AIDS.

Juan Carlos Raxach – A grande novidade desse guia é que ele é dividido em três módulos e ele aborda diferentes formas de infecções sexuais em separado. Por exemplo, tratamos a infecção pelo HIV, depois as outras IST’s tradicionais (gonorreia, clamídia) e por último vamos tratar no módulo 3 as Hepatites Virais. Isso dá a possibilidade que a pessoa procure de modo mais fácil a informação de acordo com a infecção que ela está procurando.

 

Que informações podem ser encontradas no guia?

Almeida — Nós conseguimos fazer um guia com uma linguagem de fácil acesso a todos, que as pessoas consigam lê-lo ou ir nele para se informar ou procurar entender o que está acontecendo no seu próprio corpo. E uma das linguagens/informações que conseguimos trazer para este novo guia foi que as pessoas tenham consciência do seu próprio corpo. Escuta-se muito falar em ISTs, as antigas DSTs, mas hoje em dia as pessoas não sabem o que esta acontecendo com elas. Manchas, feridas, mal-estar em seus próprios corpos não são identificados com uma possível infecção sexualmente transmissível. E através da ajuda de profissionais da área, contribuição de várias mãos e pensares acredito que conseguimos alcançar uma linguagem bem flexível para que todos tenham acesso. E esse acesso deve ocorrer onde nós mais desejamos, que é aonde estas populações mais vulneráveis estão, já que essas pessoas não tem acesso a uma saúde plena como deveriam ter. Então eu creio que esse guia possa ajudar a iniciar um entendimento melhor do seu próprio corpo.

Raxach – É bem amplo. Ela vai de como se transmite, de como você pode evitar a infecção e a transmissão e para uma das patologias – seja HIV, seja a sífilis e gonorreia ou a própria hepatite.

 

Como foi o processo de criação deste guia? Ele tem como objetivo atingir algum grupo chave ou não?

Almeida — Primeiro o objetivo dele foi alcançar o máximo de pessoas porque as pessoas infectadas elas não são só um grupo, ou pequeno coletivo, ou raça as infecções sexualmente transmissíveis atacam qualquer corpo. E nós vemos principalmente como há um grande número de pessoas se infectando. O sexo seguro perdeu a força anos atrás quando as pessoas realmente começaram a pensar principalmente através das novas tecnologias, dos novos antirretrovirais, com os novos medicamentos. As pessoas deixaram de pensar o que poderia acontecer com seu próprio corpo e assim esqueceram de técnicas, regras, regulamentos que deveríamos ter mais atenção conosco. Quando eu digo na primeira pessoa “conosco” significa eu pensando no meu corpo, você pensando no seu corpo, que é o princípio da coisa até porque nós aprendemos desde cedo que as ISTs são doenças dos outros, nunca colocamos essas doenças, essas infecções em nossos próprios corpos. Então o guia tem esse propósito de tentar alcançar todas as populações possíveis.

Raxach – O processo (de criação) foi um pouco demorado , a partir de uma ideia de nosso presidente – Richard Parker –  que achou que estamos num momento de criar um material como esse que já antigamente se utilizava o guia de sexo mais seguro e entendeu que era o momento de resgatar essa ideia e criar um novo material como esse. E o novo boom foi a proposta de fazer assim desmembrado, para tratar de HIV, IST e Hepatites. Sim, eu acho que o material em si por módulo atinge todo mundo. E tem outro tipo de documento impresso que vai de encontro com as diferentes populações.
E aí também esses materiais impressos são criados com a intervenção e a proposta dos grupos específicos.

 

A ousadia é uma das marcas do Projeto Diversidade Sexual e as produções deste guia demonstram isso em vários aspectos. Então para vocês qual a função da ousadia representada neste guia no atual momento político que o país vive.

Almeida — Primeiro que a ousadia é arriscar mesmo. Acredito que com a ousadia você pode alcançar criticas positivas, criticas negativas, porque nós estamos passando por um processo de conservadorismo muito grande, muito profundo, muito dramático. Então ousar sempre foi um dos pilares tanto projeto HSH, como da instituição. A ABIA sempre ousou, sempre esteve um passo a frente tentando trazer informações para o povo de uma forma que não fosse agressiva, mas trazendo uma realidade muito mais próxima as pessoas. Porque ser ousado não quer dizer ser agressivo. A ousadia passou a ser nos núcleos que nós temos estudados, convivido e vivido como pornografia, como aberrações, assim, a ABIA transforma toda essa ideologia de gênero que ta sendo negada a uma possibilidade das pessoas conviverem com seus próprios corpos e entenderem que o corpo não é pra ser negado e sim reafirmado.

Raxach – Olha, eu poderia dizer muitos, mas vou dizer somente um: que é a resistência. Eu acho que a ABIA ocupa esse lugar de transmitir informação clara sem nenhum tipo de visão preconceituosa e estigmatizante para toda a população. E abordando sem nenhum tipo de picaretagem o tema da sexualidade, gênero e infecção e transmissão sexual.

 

Porque resolveram fazer um guia destinado somente as ISTs? É resultado dos crescentes casos de infecções entre jovens?

Almeida — Infelizmente é algo constatado o crescente caso entre jovens tanto em infecções sexualmente transmissíveis, como no HIV/AIDS e também falando em saúde mental, já que todo esse aparato deve ser percebido dentro do grupo. Mas esse guia não é só montado para atender a população jovem, ela é mais vulnerável sim, até pela falta de conhecimento, por falta de uma tática educacional, por não se poder falar isso dentro de casa, escolas, templos religiosos então nós criamos esse guia com uma linguagem mais acessível para que jovens possam ter acesso e assim trabalhar sua sexualidade através de informações mais seguras, mas ele está aberto a todos os públicos possíveis.

Raxach – Sim, eu acho que isso é uma demanda. Acho não, é uma demanda que vem crescendo e está contemplado dentro do Projeto MAC (sobre o guia ser resultado dos crescentes casos de infecções entre jovens). De dar resposta, de uma forma mais ampla, e sempre que possível para a população jovem, de que forma se informar. De fato, está desmembrado dessa forma, mas não é uma ideia nossa, foi uma observação durante anos da população jovem que gosta de ir diretamente na informação específica. Ainda mais atualmente com todas essas possibilidades da internet etc. A grande questão está baseada no tema das tradicionais infecções sexuais.

E o HIV decidimos dividir ela porque era um pouco como se falava: ‘ah tem muita informação de muitas doenças em um mesmo material’. Então pensamos que seria interessante (dividir a publicação) e até agora tem sido bom o acolhimento do material por patologia.

 

Em poucas palavras, qual a principal contribuição do Projeto Diversidade Sexual com este guia.

Almeida — A contribuição do Projeto Diversidade sexual, Saúde e Direitos entre Jovens ela é múltipla, ela é interdisciplinar. Então esses guias — porque hoje estamos falando sobre o guia de ISTs, mas já temos o de sexo seguro para HSH e mulheres cis e estamos com a produção de um outro para mulheres trans — ele é um módulo que abrange todas as populações que já fizemos um produto e isso não quer dizer que um produto que seja direcionado para um grupo específico não possa atingir outro. Até porque as informações que estão lá são relevantes e podem ser aplicadas a qualquer pessoa que faça desses guias uma leitura para conhecerem e reconhecerem gênero, sexualidade e saúde.

Raxach – Anteriormente eu falei sobre isso: o material é um material vivo. O que quero dizer com material vivo? É um material em que os módulos estão disponíveis na internet. O saber científico, todo, do ponto de vista muda e as pessoas poderão acrescentar e tirar coisas. Podemos modificar esse material com bastante frequência a partir do que vai se conhecendo e como ele vai se comportando do ponto de vista informativo para a população.

Se eles entendem que uma palavra não é mais adequada isso pode ser mudado. E o Projeto abriu espaço para essa possibilidade. De fato, os materiais impressos são um resumo dos módulos, mas com a visão da população que vai ser atingida. Não fomos nós que criamos, foi a própria população através dos grupos focais e que quer esse material.

Clique aqui para fazer o download do guia!

Entrevista: Jean Pierry e Jéssica Marinho

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