Coordenador do Projeto Diversidade, Vagner de Almeida, relembra trajetória da ação social no dia do Orgulho LGBTQI+


Celebramos hoje o Dia do Orgulho LGBTQI+, que neste ano ganha um status de grande importância. Afinal, a população mundial passa por um momento em que vê seus direitos sociais, políticos e culturais serem negligenciados.

Nesta mesma data no ano de 1969, em Nova Iorque, pessoas da comunidade LGBTI+ cansadas dos ataques físicos e mentais cometidos por parte dos policiais locais decidiram reagir. Desde então este momento passou a ser conhecido como a “Revolta de Stonewall”, que está completando 51 anos em 2020. Assim, a data passou a ser considerada por membros do movimento LGBTQI+ como um marco onde ativistas ou não se mostraram contrários ao descaso e assédio que sofriam. Consequentemente o dia 28 de junho ficou marcado como o Dia do Orgulho LGBTI+.

Atualmente, somos bombardeados diariamente pelo avanço da pandemia de COVID19 no país e consequentemente a quebra dos direitos ligados a saúde desta população que segue sendo estigmatizada. Deste modo, a importância de comemorarmos o dia do Orgulho LGBTQI+ segue sendo uma das maneiras de relembrarmos um passado ainda recente onde estes indivíduos conseguiram mostrar sua força, e lutar contra o conservadorismo e machismo impetrados na população da época.

Hoje a briga contra a discriminação, estigma e quebra de direitos da comunidade LGBTQI+ se tornou uma luta de todxs. A inadmissibilidade da homofobia, transfobia e quebra dos Direitos Humanos são valores imprescindíveis de toda a comunidade, mas também devem ser adotadas por toda a sociedade. Apesar de vivermos tempos em que a democracia e o direitos das populações ditas marginalizadas ou vulneráveis encontram-se no limiar de seu esgarçamento, o Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens vêm reforçar que não abrimos mão do respeito, da igualdade, da solidariedade e do senso de coletividade como premissas. 

Abaixo o coordenador do Projeto Diversidade Sexual, Vagner de Almeida, nos conta um pouco mais sobre a trajetória do projeto social que busca através da arte e cultura se fazer presente na vida de jovens LGBTQI+, desde o início dos anos 90 na ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS) e porque ainda hoje continua sendo importante.

 

Como se iniciou o Projeto HSH? E por quê?

R: Iniciamos em 1993 o “Projeto Homossexualidade” da ABIA,  onde tentamos construir uma abordagem alternativa para se falar sobre sexualidade de homens que faziam sexo com homens (HSH) e o HIV e AIDS que eram ambos temas repletos de discriminações, estigmas e negações. Trabalhava-se questões que tinham a ver com direitos de cidadania, opressão sexual e familiar e sexo seguro sempre em um período onde pessoas se infectavam sem mesmo saber como conviver com o vírus e onde ir procurar informações. Muitas pessoas tiveram acesso a camisinha pela primeira vez na ABIA.

Dentro dos leques de atividades, desenvolve-se a “Oficina de Teatro Expressionista, Sexualidade e AIDS para HSH”. A partir dessa oficina conseguimos desenvolver uma leitura sobre a construção da epidemia no Brasil e no mundo. Através de textos que procuraram analisar e demonstrar os processos sociais e as relações de poderes envolvidos com as comunidades gays da época.

Foi um trabalho de caráter inédito por ter a coragem de desnudar a moral de uma sociedade que subjugava e subjuga até hoje, estigmatizava HSH assumidos como nos dias de hoje e a subtração da autoestima desses cidadãos. A proposta das oficinas semanais era desafiar e enfrentar o HIV/AIDS, a violência urbana, estrutural e doméstica, a convivência em parcerias abusivas e a solidão imposta pelo sistema em torno desses cidadãos.

Que paralelos você consegue fazer entre a juventude HSH da época e a atual?

R: Os paralelos contemporâneos são similares em se tratando ainda da discriminação e do estigma, porém, com o advento da internet, as redes sociais que surgiram e outras tecnologias são e fazem os diferenciais dos HSH atuais, principalmente com a criação das novas siglas LGBTIQ+ e a separações dos gêneros nestas categorias. Não havia isto em 1993, pelo menos não no Brasil, e todxs se misturavam para discutir comportamentos. Havia muitos jovens em transição para se tornarem uma mulher trans, mas nesta época nunca tivemos no grupo um ou mais homens trans.

Em 1993 os participantes nem telefones celulares tinham. Raros os que possuíam seus fones particulares. As redes eram presenciais, as pessoas vinham as oficinas para escutar e trocar experiências e com isto iam criando entre eles grupo de debates. Hoje se conversa via redes com seus aparelhos celulares, há informações online, as pessoas não precisam de outros interlocutores presenciais. Hoje o HSH, que não quer ser reconhecido, ele pode se esconder com a tecnologia e também há um espaço em poder se manifestar mais livremente como no dito popular, “Sair do Armário” ou permanecer nele com mais conforto.

Qual a importância e os riscos de se manter ou pautar questões de sexualidade, HIV e direitos humanos – que o projeto HSH abordava – num momento de recrudescimento, fundamentalismo e conservadorismo ideológico no Brasil?

R: Vejo um profundo retrocesso em todas as nossas conquistas até aqui, retrocedemos décadas de lutas. A opressão, a violência, a impunidade, o racismo, poder de classe social e as religiões retrógadas se tornaram armas poderosas contra toda conquista até recentemente tidas como superadas.

Manter a pauta do ineditismo do HSH de 1993 é um risco, uma afronta para todos esses grupos que estão infiltrados na sociedade. O conservadorismo adicionado à violência contra a comunidade LGBTIQ+ se tornaram atos comuns. Assassinar um/a LGBTIQI+ é limpeza de área, menos um/a, um sistema paralelo de lei controverso aceito e sem punição pela sociedade.

É importante mantermos as pautas sobre gênero, sexualidade e a saúde dessa população por resistência, por direitos à liberdade e expressão.

Uma das principais ações do Projeto HSH ao longo dos anos foi a Oficina de Teatro Expressionista. Para você qual foi a importância desta ação na vida dos jovens naquele período?

R: O teatro como arte da vida, da expressão viva, sempre teve a fórmula revolucionária de discutir questões que a sociedade não queria ou impediu de se comentar ou debater de forma pacífica e democrática.

Vimos que a técnica do “Teatro Expressionista Sexualidade e AIDS para HSH”, seria uma ferramenta positiva para discutirmos de forma bem inusitada, alegre, inteligente as questões que incomodavam, necessitavam ser discutidas em forma das histórias de vidas de cada participante das oficinas. Literalmente, o teatro foi a ferramenta fundamental em todo processo de construção e das falas de todxs. 

Através do Teatro Expressionista conseguíamos costurar as histórias e com essa colcha todos faziam parte da mesma rede, criando assim empatia com a história de vida do outro, a construção da solidariedade como filosofia da instituição sempre mencionada pelo Herbert de Sousa, o Betinho. Foi uma fábrica de emoções onde juntos festejávamos as vitórias e nos fortalecíamos nas derrotas. Neste período perdíamos ainda muitos participantes, amigos, parceiros, conhecidos para o HIV e a AIDS e para a homofobia.

Essa oficina foi de uma importância fundamental na vida de tantos jovens da época, pois cada um pode de sua maneira desnudar-se de suas redes de opressões, ouvindo e se identificando com as opressões de outros.

 

Um dos seus motes de atuação são os documentários, que buscam dialogar com os principais desafios enfrentados pela população LGBT. Conte um pouco mais sobre as experiências pessoais que as filmagens trouxeram para a sua vida.

R: Em todos os meus documentários, eu busco a inspiração nas histórias de vidas que vou garimpando nas Oficinas e encontros com essas populações. Essas falas, depoimentos, escutas são inspiradoras e trabalhar através do áudio e visual esses relatos é uma das fórmulas que mais contribuem para um conhecimento de como essa população é e vive neste sistema tão opressor e diverso.

Sempre envolvi na equipe técnica pessoas que fazem parte do roteiro a ser rodado. Acho importantíssimo inserir os contadores das histórias em todo processo de criação dos meus documentários.

Os documentários que escrevo, dirijo, são criados em parceria, pois creio que sempre que possível os protagonistas de suas próprias histórias estejam nos sets de filmagens e nas edições dos documentários. Sempre trabalhei assim e acredito que as margens de erros são bem menores quando todo processo é executado em parceria com os próprios atores sociais dos filmes. Todas essas produções/filmes podem ser encontradas no site do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens da ABIA –

 

Para você qual a importância do Projeto HSH se manter vivo e atuante durante todos esses anos ?

R: Pouco melhorou, avançamos se assim podemos acreditar desde que o projeto foi criado, mas pelo cenário atual as coisas só pioram, mesmo com o advento de todas as tecnologias em torno. Passamos a perceber as atrocidades contra essa população ao vivo e a cores. Vemos a violência estrutural se instalando de forma avassaladora no sistema atual, tanto no Brasil como no mundo. Percebemos o descaso pela vida e a dor do outro pela própria comunidade LGBTQI+, pois vidas não importam mais. Observo que o “Silêncio = Morte” é um apelo a todxs para que as comunidades observem no que o mundo se transformou e reajam contra todo esse sistema opressor.

Projetos como o HSH da ABIA é fundamental neste momento histórico de profundo retrocesso político do nosso país, pois só de mãos dadas e com o mesmo ideal conseguiremos resistir todo esse retrocesso.

Entrevista: Jéssica Marinho e Jean Pierry

Fotos: Vagner de Almeida

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