Com Joe Biden no poder, luta contra aids e a favor dos direitos humanos pode avançar, comemoram ativistas brasileiros


O candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, está confirmado como o vencedor da eleição realizada neste início de novembro. O mundo acompanhou a decisão voto a voto. Biden se comprometeu a lutar pelos direitos humanos e a favor das pessoas vivendo com HIV/aids e LGBTIA+. Ele prometeu, por exemplo, reverter as políticas do Departamento de Defesa que perpetuam a estigmatização e a discriminação contra as pessoas que vivem com HIV. Sobre o acesso ao tratamento para pessoas com HIV/aids e financiamento para pesquisas no tema, Biden afirmou se comprometer com o fim da epidemia de HIV/aids até 2025. Esta estratégia consiste no objetivo de reduzir o número de novos casos de HIV, enquanto aumenta o acesso ao tratamento e elimina o acesso desigual a serviços e apoios. 

A Agência de Notícias da Aids conversou com ativistas do Brasil sobre o que representa a vitória de Biden para a luta contra aids e a favor dos direitos humanos. Confira a seguir:

 

Richard Parker, diretor- presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids): “Se for realmente eleito, o Joe Biden será certamente muito melhor em termos de políticas sobre a aids e também sobre questões das comunidades LGBTQI+ do que o seu oponente, Donald Trump. A plataforma de Biden (e do Partido Democrata) tem um compromisso claro sobre o enfrentamento de HIV e Aaids — e se posiciona de forma transparente contra os muitos retrocessos nos direitos LGBTQI+ (e os direitos sexuais de forma mais ampla) promovidos pelo governo Trump. Biden também tem um posicionamento histórico a favor dos direitos LGBTQI+. Vale a pena lembrar que foi o posicionamento dele a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo, antes de Obama, que pressionou o Presidente Obama a definir o seu apoio sobre esta questão. Ainda não temos muitos detalhes específicos sobre como um possível governo Biden irá se posicionar em relação à resposta global frente a aids. Mas o fato que este governo irá retomar a participação dos EUA nas agências multilaterais (como a Organização Mundial da Saúde, por exemplo) e nos pactos diplomáticos mais importantes no campo do desenvolvimento (o acordo de Paris, por exemplo) já é um bom sinal. O seu compromisso com os direitos humanos está muito claro (ao contrário do Trump). Portanto, o movimento de aids vai ter espaço político para atuar com um eventual governo Biden.”

 

Alessandra Nilo, jornalista e fundadora da ONG Gestos, Comunicação e Soropositividade: “Para nós significa a possibilidade de o mundo voltar a atuar nas agendas da luta contra aids e a favor da comunidade LGBTIA+ com mais racionalidade, com estratégias que são baseadas em evidências cientificas e não em ideias fundamentalistas. Significa que a gente pode seguir contando com os Estados Unidos como um ator chave e progressista nas questões que dizem respeito aos direitos humanos, ao direito ao desenvolvimento sustentável e principalmente em relação a questões de direitos sexuais, que são agendas que foram muito atacadas pelo governo Trump. O papel dos Estados Unidos no contexto global continua sendo essencial. Muitos países, principalmente os países africanos, são dependentes da cooperação externa americana, com Trump, condicionalidades foram impostas a esses países. A volta dos democratas com este candidato e contra o candidato atual significa a volta e o equilíbrio na direção de uma democracia mais participativa, focada no que ela deve ser, no direito de todas as pessoas.

 

Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo: “Com o Biden eleito, teremos uma mudança significativa nos Estados Unidos. A política adotada pelo atual presidente, Donald Trump, principalmente com relação aos direitos humanos, foi devastadora. Não foi à toa que boa parte dos ativistas do mundo se uniram para que a Conferência Internacional de Aids não acontecesse nos Estados Unidos. Hoje, há reflexos desta política de retrocesso ao enfrentamento da epidemia de aids. Agora, com esperança e compromisso, teremos a chance de reverter as decisões do governo Trump. Acredito que os Estados Unidos vão avançar muito na resposta a aids, com a inclusão de pessoas com HIV no acesso ao tratamento antirretroviral – não podemos nos esquecer que eles têm papel fundamental nas negociações de preços com as indústrias farmacêuticas. Acredito que terão também um olhar específico para as minorias que são vulneráveis a infecção pelo HIV/aids. É hora de colocar a aids nos centros das discussões. Assim como a covid-19, a aids também é um problema grave de saúde pública. Precisamos avançar na resposta mundial e na defesa da democracia.”

 

Américo Nunes Neto, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra Aids): “Acredito que teremos bons avanços na resposta mundial da luta contra a aids, principalmente se levarmos em conta as questões de gênero, estigmatização e discriminação contra as pessoas que vivem com HIV.  Pode significar também a quebra da política ditatorial “Trump” de exclusão e desrespeito a comunidade científica e dos direitos humanos. Com a eleição de Biden as expectativas são grandes para as questões de propriedade intelectual, assim como os direitos das pessoas com HIV/aids ao trabalho, sociabilidade, inclusão em todas as possibilidades de participação, inclusive nas forças armadas. Vejo com bons olhos que o Sr. Joe Biden dirá sim na pactuação com as seguradoras de saúde. Espero a contraposição ao governo de Bolsonaro, principalmente nas questões de meio ambiente e saúde e no cumprimento das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Assim como para as metas do fim da aids, redução dos casos de HIV e acesso universal de tratamento. A janela para o mundo é sistema político americano e com Biden a frente, a política brasileira poderá ter novos rumos.”

 

Carolina Iara de Oliveira, do Coletivo Loka de Efavirenz“ A eleição de Biden representa um marco civilizatório contra a barbárie neofascista que Trump e sua onde de extrema direita representa no país mais poderoso do mundo. E é essencial para as vidas LGBTQI+ e negras que exista uma proteção à saúde maior fornecida pelo Estado, assim como é de suma importância que pessoas vivendo com HIV/AIDS tenham acesso a medicação gratuita, diagnóstico precoce e que não sofra discriminação e exclusão através da renda (e carestia) dos planos de saúde. Nesse sentido, a eleição de Biden para as comunidades historicamente oprimidas representaria escapar da total barbárie e ter um respiro e alguns direitos historicamente negados.”

 

Beto de Jesus, diretor da AHF (Aids Healthcare Foundation) no Brasil: “Eu particularmente tenho boas expectativas em relação ao Biden como presidente dos USA. Ele assinou a carta da plataforma End Pandemics 2020 que foi enviada para os candidatos presidenciais dos EUA, carta essa assinada por mais de 60 organizações pedindo aos candidatos que apresentem seus planos para renovar a liderança americana para avançar na luta contra as pandemias atuais e as que por ventura surgirem. Biden ao endossar a plataforma End Pandemics, se comprometeria com sua administração em duplicar o investimento dos EUA em um esforço para acabar com a aids, a tuberculose e a malária e garantir que os países de baixa e média renda possam detectar doenças e fazer avançar a saúde de seu povo antes que os surtos se transformem em pandemias. Vejo isso de forma bastante otimista, apesar de saber que vários interesses estão em jogo.”

 

Fábio Mesquita, infectologista a serviço da Organização Mundial de Saúde (OMS): “Gostaria de começar celebrando o fato de que para além da eleição do presidente Biden, o país elegeu a primeira vice-presidente negra da sua história. Isso é muito significativo. Esta eleição foi marcante também em vários outros sentidos: Os Estados Unidos da América elegeram a primeira senadora estadual trans de sua história, além de ter eleito congressistas emblemáticas, como uma refugiada muçulmana (situação inédita no país) e Cori Bush, uma das maiores ativistas do movimento Black Lives Matter. Essa eleição também foi marcada pelo número recorde de mulheres indigenas eleitas para o Congresso. Tomara que essa se torne uma tendência mundial. A eleição de Biden e dessa bancada única, podem refletir o desejo das pessoas em derrotarem o extremismo, o racismo, a misoginia e outras violências aos direitos fundamentais. Biden sempre teve uma postura bem nítida em relação aos Direitos Humanos e em favor das populações tradicionalmente marginalizadas. Foi inclusive um dos parlamentares pioneiros na defesa dos direitos LGBTQI+. Isso por si, já denota uma diferença significativa entre ele e seu opositor. O fato dele ter endossado a plataforma End Pandemics 2020, também denotou uma disposição pública em se posicionar frontalmente no combate a Covid-19 e o HIV/aids. Biden também se comprometeu a defender os Direitos Humanos, a combater a discriminação e o estigma à pessoas vivendo com HIV nas forças armadas e em outros espaços. Em um momento tão crucial da história onde enfrentamos uma pandemia de proporções inimagináveis em um cenário global de retrocesso dos direitos humanos e de perseguição de populações vulneráveis, ter à frente dos Estados Unidos um presidente que se comprometa a retomar uma agenda humanitária , de apoio à diversidade e proteção das minorias é motivo de otimismo. Mesmo compreendendo que política é um ambiente complexo e nada previsível, torço ainda para que o governo norte-americano se reintegre às agências multilaterais.”

Fonte: Agência de Notícias da AIDS

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