Cine ABIA sobre Janaína Dutra discute a vida de Travestis e Transexuais no Brasil


Uma noite de homenagens e debate sobre os desafios da vivência e da luta de travestis e transexuais no Brasil. Foi esse o objetivo central do “Cine ABIA Janaína Dutra: Uma Dama de Ferro” sobre a vida de uma das maiores ativistas pelos direitos humanos de travestis, transexuais e pessoas vivendo e convivendo com HIV/AIDS no país, exibido na noite da última quarta feira (02/08), às 19h00 na sede da instituição.

A resistência e trajetória da primeira advogada com nome social reconhecido pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), nascida no interior do Ceará, narrada por familiares e amigos próximos atraiu diversos jovens e adultos. Dirigido e produzido por Vagner de Almeida – coordenador do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens– com o Grupo Asa Branca (GRAB-CE), “Janaína Dutra: Uma Dama de Ferro” serviu de base e fomento para o debate após os 50 minutos do documentário, assistidos com atenção, emoção e um silêncio sepulcral no Salão Betinho.

A mesa de discussão foi formada pela Assistente social e graduanda da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), Cléo Oliveira, pela Assessora parlamentar do Deputado Federal Jean Wyllys Alessandra Ramos Makkeda, pela estudante de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luiza Mendonça – todas mulheres trans- e a Assessora do Conselho Superior do Ministério Público do Rio de Janeiro, Fátima Baião. “Eu fiquei muito tocada pelo que Janaína disse sobre a família. Como é importante ter a família te dando apoio. Na minha família eu também não quero saber se vão me chamar pelo meu nome antigo ou como Cleo. Eu entendo quando me chamam no masculino, mas eu só quero que me respeitem enquanto mulher”, afirmou Cleo. Já Makkeda compartilhou a experiência e a oportunidade de ter conhecido Janaína. Segundo ela, a força de “uma loba” da advogada e ativista a impressionava e encantava e revela: “eu não conseguia ver Jana como uma travesti. Ela era tão diferente, ela falava de um jeito tão particular que nem eu como uma mulher trans (“eu era gay naquela época”) não conseguia classificar ela desse jeito, pois a mesma fugia de todos os estereótipos que a sociedade nos impunha”.

“Eu conheci a UNIFOR (Universidade de Fortaleza) ano passado e é uma faculdade totalmente elitista. Então eu fico pensando como não era para naquela época ter entrado lá e passado por tudo que passou e ainda assim ter se imposto”, falou Luiza. Com uma carreira extensa marcada por passagens em instituições como o Grupo Pela Vidda (GPV-RJ) e a defesa dos LGBT’s a advogada Fátima Baião se mostrou grata pelo espaço de poder discutir a temática e disse que “apesar de achar que alguns familiares não compreendiam totalmente Janaína”, o filme é uma boa oportunidade para levantar questionamentos na sociedade. “Porque a coisa não pode ser apenas guerra e paz. O que precisamos é de sensibilidade para respeitarmos o outro”, advertiu ela. “Hoje eu tenho como desconstruído a questão da redesignação sexual em minha vivência. Eu consegui me aceitar com o corpo que eu tenho. Porque a resposta, muitas das vezes, que você quer dar é para o outro e não para você”, revelou Cleo sobre as novas terminologias e compreensão da Transgeneiridade da época em que o filme foi gravado (2002) para hoje. “As pessoas acham que toda transexual é aquela que faz a cirurgia e a travesti é o homem que se veste de mulher”, completou Luiza, que criticou a forma acadêmica como o assunto ainda é tratado. De acordo com a jovem, “ até hoje dentro da própria faculdade, onde as informações deveriam ser abundantes muitos psiquiatras ainda veem as trans como aquela que opera e assim fomentam uma ideia totalmente ultrapassada. ”

“A gente só tá (sic) aqui porque existiu uma Janaína Dutra”. A contundente frase foi a síntese da fala de Alessandra Ramos quando as discussões orbitaram a questão das travestis serem vistas apenas prostitutas ou passíveis desse segmento, uma vez que hoje – diferentemente da grande maioria – encontra-se no mercado de trabalho. “Em Borboletas da Vida eu acompanhei essas meninas nos trens e pude ver de perto como elas sofriam. Os xingamentos e opressões que passavam para voltar para casa na Baixada Fluminense’’, revelou Vagner de Almeida. Os discursos hegemônicos criados pelo Liberalismo e absorvidos pela Academia moldaram e formataram novos “arranjos” de travestilidade e transgeneiridade sob o termo identidade de gênero e impõe isso como via de regra para a população Trans. Contrária a esse movimento, Alessandra Makkeda enfatizou que “não é só a sociedade que impõe não, nós também somos a sociedade e não aceitamos. No próprio núcleo das T, essas mesmas pessoas que são oprimidas compactuam com a opressão. Então eu tenho que refletir e falar para mim mesma que o meu lugar não é a escória, que eu não sou suja. Assim, quando eu vejo Janaína Dutra, porra, eu vejo que é possível ser ou passar pela academia, mas não deixar de ser travesti e nem higienizada. ” Encerrando a noite, Baião pediu a palavra para declamar um poema e agradecer os ensinamentos aprendidos até hoje com os LGBT’s e a “alegria de poder ajudar todos vocês enquanto estiver viva”, disse emocionada.

Cine ABIA “Janaína Dutra: Uma Dama de Ferro” foi mais uma ação positiva do Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens da ABIA com apoio da MAC AIDS Fund.

 

Texto: Jean Pierry Oliveira e Jéssica Marinho

Fotos: Vagner de Almeida

 

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