“Chego em casa emocionalmente destruída”, relata jovem professora sobre os desafios da Educação. Militante, ela se posiciona ainda sobre sexualidade, feminismo e outros tabus (2017)


Texto: Jean Pierry Oliveira

Educar é um dos primórdios fundamentais da Humanidade. Conhecimento adquirido e repassado é o caminho mais fácil e objetivo para a obtenção de cultura, formação pessoal e profissional de um indivíduo, além de ser o cerne das relações numa sociedade. Apesar de toda a teoria, os caminhos da educação na prática tornaram-se cada vez mais desafiantes para quem escolheu o caminho do Magistério, das Letras e/ou da militância como objetivo de vida. Realidade encarada e vivenciada rotineiramente pela jovem professora Thayane Christinne de Araújo. Aos 23 anos, já formada, a moradora de Nilópolis – o menor município na Baixada Fluminense e do Estado do RJ – trabalha atualmente numa escola em Deodoro, zona oeste da capital.

Apesar de ter pouco mais de um mês na unidade escolar, esse período já foi crucial para identificar características com as quais não esperava encontrar. “As pessoas, as professoras, os profissionais de educação eles entram nos estabelecimentos carregados de esteriótipos e preconceitos quando, na verdade, a escola deveria ser um espaço de discussão sobre tudo isso(questões de gênero, sexualidade, sexo e outros) e desconstrução também”, revela. Mas ela reconhece que muitas das vezes a dificuldade encontrada reside na falta de qualificação que os profissionais da educação recebem na base, desde a faculdade, para trabalhar pautas e questões progressistas que afetam crianças e adolescentes no dia a dia, dentro das quatro paredes da sala. Uma delas diz respeito ao bullying: trabalhando num projeto da prefeitura do Rio de Janeiro, onde leciona para “crianças que tem déficit, porque lá eu pego alunos que são considerados os piores, que tem conceito I, então eles chegam pra mim sem saber ler, sem saber identificar uma letra”, Thayane tenta incutir nelas atividades que lhes proporcionem o desprendimento com a língua portuguesa e com o lúdico. Numa dessas oportunidades, deparou-se com uma triste realidade: “eu fiz uma leitura de um texto sobre bullying e aí pedi pra eles falarem se sofriam isso e aí eu ouvi relatos que, assim, me chocou bastante. Crianças de 9 anos dizer que o colega o xingou de macaco e assim, você acredita que existe, você sabe que existe, mas quando você tá (sic) ali, quando você vê alguma coisa acontecendo, é bem forte. É bem forte mesmo”. E completa: “Eu cheguei em casa nesse dia destruída emocionalmente”. Segundo ela, apesar da lacuna na base de formação profissional, também falta boa vontade e proatividade dos profissionais para discutirem esses temas.

E os desafios não se limitam ao educacional. Em sua cidade de origem na Baixada Fluminense, é a Cultura que se ausenta da realidade diária dos (jovens, principalmente) moradores. “(Morar na Baixada Fluminense) é se sentir um pouco limitado com relação à cultura, com relação a acesso de coisas interessantes mesmo. Pra gente tudo chega depois, a questão da saúde também eles deixam a Baixada muito pra depois, é um município muito pequeno, um dos menores do RJ”, atesta ela. Segundo ela, uma das razões para isso diz respeito ao fato do município ser uma “cidade-dormitório”, ou seja, muitos de seus moradores saem de lá para trabalhar em outras regiões e só retornam no final de cada expediente. Apesar da formação e tradição familiar no Magistério/Letras, durante muito tempo, Thayane desejou estudar Direito. Mas quis o destino que ela usasse dos poderes constitucionais como escudo para a luta e garantias dos direitos coletivos das minorias, de outra maneira. Esclarecida e concisa, foi no período da adolescência que ela descobriu seu gosto por meninas. “Eu conheci uma menina pela internet, gostei dela, me apaixonei e foi assim que eu me descobri como lésbica. Depois fui me envolvendo com outras pessoas e aí confirmei que é realmente isso que eu gosto no momento. Foi bem natural”, pontua.

Apesar disso, a família sempre que podia provocava sobre quando iriam conhecer o “namoradinho” dela. Incomodada e ainda no “armário”, foi durante a graduação no ensino superior que ela decidiu revelar-se para a mãe. Contou com a ajuda dos amigos e da prima para o momento. “Primeiro eu comecei dizendo que as minhas amigas eram somente as minhas amigas, citei os nomes delas, pra ela não ficar achando que quando eu durmo na casa das minhas amigas eu não tô (sic) dormindo lá, entendeu. Aí eu falei : “mãe eu não gosto de meninos, eu sou gay”, eu nem falei lésbica pra não pesar tanto entendeu?! Na hora ela começou a chorar e perguntou se algum menino tinha me decepcionado e eu falei que não, que minhas experiências haviam sido boas, mas que eu não me via completamente feliz, que eu não gostava disso (de meninos)”, disse ela. Apesar da reação não contemplativa da mãe, num primeiro momento, a questão foi ultrapassada entre ambas e o “peso” virou alívio.  Ainda assim, em sua opinião, “é mais fácil aceitar uma gay do que uma lésbica. Porque assim, eles acham que tá (sic) na moda ser gay. E aí quando eles vêem uma lésbica eles contestam e comentam que é porque nunca provou um homem, nunca teve um homem bom”.

LGBT’s

Sobre a questão dos LGBT’s (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Thayane afirma que já não se consegue afirmar hoje em dia que uma pessoa é ou deixa de ser homossexual apenas por aquilo que ele/ela veste, ou seja, pelos esteriótipos, uma vez que “com esses estilos alternativos das lojas, essas linhas unissex, todo mundo tá (sic) usando tanta roupa que, às vezes, você olha e não consegue dizer”. Entretanto, quando provocada sobre a luta e coletividade do movimento, a jovem foi assertiva em sua observação. “Eu acho que as letrinhas (LGBT’s) elas tem duas vertentes: uma é que separa todo mundo, que quando vai lutar cada um luta pela sua letra. E a outra vertente é a questão de que tem que ter as letras mesmo pra saber (que) existe uma diversidade de pessoas, que não é todo mundo só homossexual, só diferente, só colorido. Cada um tem a sua especificidade. Só que ao mesmo tempo tem essa coisa de separar, por exemplo, quando eu estive lá na Conferência Nacional de Direitos Humanos o pessoal não tava assim “ah, vamos pensar nas travestis, vamos pensar nas lésbicas”, não, não estavam assim. Estavam, principalmente, cada um lutando pela sua letra. Então no momento de direitos eu acho que há sim uma separação da luta. Primeiro, cada um fala por si. Depois que cada um vai pensar no coletivo”, frisa ela.

Com a questão da transexualidade exposta diariamente em horário nobre, o assunto também entrou em pauta durante suas considerações. Para a professora, é importante e necessário o esclarecimento oferecido pela novela “A Força de Querer”, de Glória Perez, pois “eu tô vendo essa abordagem como muito sensível porque de certa forma até ela (a personagem Ivana) tá (sic) tendo uma dificuldade e o público tá (sic) podendo ver que não é a gente que quer ser assim, a gente também luta contra isso no começo, eu acho que todo mundo luta um pouquinho contra o que é porque é diferente o momento em que a gente se descobre, e a gente não está completamente habituado com isso. Espero que um dia isso seja mais natural pra qualquer LGBT”, acredita.

Assim como também espera que a lesbofobia (intolerância contra lésbicas) não seja mais via de regra para o julgamento de mulheres que se relacionam com mulheres. Mesmo afirmando que nunca sofrera esse tipo de violência, Thayane enfatiza que “quando eu tô(sic) me relacionando com uma pessoa ela fica inibida até de dar um selinho no ponto de ônibus com medo de sofrer alguma repressão”, admite. Esse temor também se faz presente pela falta de recursos públicos e políticas públicas voltadas às pautas LGBT’s, especialmente, no Rio de Janeiro. Com o desmantelamento de importantes ações como o Rio sem Homofobia, por exemplo, uma nuvem de incertezas paira sobre as temáticas desse grupo. “Então, tá (sic) tudo muito fraco da parte governamental e quando tem alguma coisa é mínima. Ou então eles tentam de toda a forma, não estou falando necessariamente desse momento, mas quando tem alguma coisa eles diminuem a colherada que dá pra gente, entendeu?! Eles diminuem o máximo nos recursos, diminuem a visibilidade em tudo. E, quando não estão diminuindo nossos direitos, eles estão tirando completamente como está acontecendo agora”, frisa. E completa: “o que tá (sic) acontecendo no RJ é falta de sensibilidade mesmo”.

Pelo menos em Nilópolis, ela está podendo contribuir com um pouco mais de ênfase e apoio. Através da Fundação Disco (Fundação Nilopolitana da Diversidade Sexual Colorida), fundada por Islene Motta, a jovem participa do desenvolvimento de diversas ações de cunho político, social e educativo que promovem novas perspectivas para a equidade de gênero, respeito pela diversidade e tolerância. Apesar do apoio que, vez ou outra, conseguem da prefeitura local, tudo é feito passo a passo e sem ares histriônicos. “Lá a gente faz um trabalho bem de formiguinha mesmo, são pequenos trabalhos mas que consideramos importantes. O nosso trabalho não é aquele que estamos ali criticando e só mostrando que tem LGBT, a gente faz a provocação, a gente indica a maneira e as pessoas que podem desenvolver certo trabalho, como foi o caso das escolas. Não é aquela militância que vai lá na porta da prefeitura apenas fazer o protesto e dizer que quer. Porque todo mundo quer, é lógico que todo mundo quer. Mas a gente tem que contribuir de alguma forma, a gestão tem de ser participativa. A gente ocupa e participa dos conselhos, a gente discute nos conselhos as nossas pautas. Então, na militância eu sou mais assim de ajudar esse grupo no que eles precisam, a gente monta palestra, a gente faz nosso trabalho devargazinho lá, mas a gente acredita que tá (sic) sendo propositivo. Não tá (sic) sendo só da boca pra fora”, discursa ela. Ressaltou ainda a capacitação feita com professores das unidades municipais sobre as questões LGBT’s, com ajuda do professor universitário Ivan Amaro, da UFRJ, do campus Duque de Caxias, e apoio da prefeitura, como um dos ganhos de toda a provocação exercida pela Fundação Disco.

HIV/AIDS

“Comigo mesmo eu não tenho me preocupado. Nunca me preocupei, porque confio muito na pessoa que eu tô (sic), ela sempre faz o teste, entendeu, mas eu tenho amigas que se envolvem, eu tenho uma amiga especificamente que se envolve com caras de aplicativo e eu sempre tô (sic) no pé dela pra usar camisinha”, revela Thayane quando questionada sobre como lida com a questão do HIV, da AIDS e da prevenção durante seus relacionamentos. Ainda que defenda a ideia de que “as lésbicas são menos suscetíveis a ter qualquer contato com alguma IST (Infecção Sexualmente Transmissível)”, ela mostra-se preocupada e incomodada com pessoas próximas a sua vivência que negligenciam sua prevenção. Para ela, os jovens contemporâneos perderam o medo da doença: “eu escuto muito assim “ah você come ou chupa a bala com papel?”. Eu acho que eles (jovens) são negligentes (com a prevenção) porque eles acreditam que há tratamento, caso alguma coisa aconteça. E também porque eles acreditam que nada vai acontecer com eles nunca”. E completa: “(O jovem perdeu o medo da infecção) e tem outra questão que é a falta de discussão. É uma coisa que deveria ser mais abordada nas escolas, mas só é uma vez por ano que eles vão lá com a professora de Ciências e dá Doenças Sexualmente Transmissíveis. Se houvesse maior discussão, talvez, o jovem ia se preocupar mais”, sentencia.

Futuro

Com tantas opiniões fundamentadas, posicionamento político, personalidade e militância, afinal, o que esperar do futuro? Pergunta prontamente respondida: “Então pro futuro eu queria assim, sei lá, que rolasse um projeto, um edital maravilhoso que eu pudesse levar o diálogo pra esses alunos pra juntar a minha formação que eu tô (sic) vivendo agora. Não digo nem no Direito porque pode ser uma coisa bem distante que eu não estou nem pensando agora. Mas eu acho que se rolasse um projeto em escolas, que desse pra eu fazer esses debates, de levar as temáticas é com o que eu ficaria mais feliz”.

Já no âmbito pessoal, sem modéstia, porém com certa timidez ela revela que sonha “em casar, ter aquela casinha, sabe. Receber os amigos, comprar móveis, eu gosto bem dessas coisas. Sou bem mulherzinha nessas horas. Fazer comida, eu fico vendo aplicativo de receitas, GNT eu assisto todo dia, Home & Health, então no meu círculo pessoal eu penso nisso pro futuro”. Apesar disso, a maternidade não é algo que está nos seus planos. Não objetivamente. “Biológico não passa mesmo pela minha cabeça, porque a minha própria família me supre nesse ponto de vista, nessa questão. Agora, já a adoção não é uma coisa que eu penso agora. Mas, se futuramente, eu tiver com uma mulher e ela tiver esse sonho e eu já tiver realizado muitos dos meus sonhos, por exemplo, viajar por aí, fazer mochilão, se eu já tiver realizado esses meus sonhos, aí eu embarco no dela também e vou fazer da melhor forma”, finaliza.

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