EXCLUSIVO: Projeto Diversidade entrevista profissionais de saúde que atuam no combate a COVID-19 em Duque de Caxias. Uma das jovens está infectada por Coronavírus


Profissionais de saúde atuam no limite da capacidade e em meio aos riscos. Foto:Pilar Olivares/Reuters

Terceiro mais populoso município do estado do Rio de Janeiro, a mais populosa cidade da Baixada Fluminense, com quase 1 milhão de habitantes, dividida em quatro distritos, rica em royalties de petróleo por conta de sua refinaria e com um dos maiores centros comerciais populares cariocas. Apesar de tantos superlativos, no momento mais propício para fazer jus a fama, Duque de Caxias dá o exemplo mais fidedigno de inferlativo quando se trata de quarentena.

Isso porque o município tem se notabilizado pelo baixo isolamento social no meio da pandemia por Coronavírus no estado. A cidade governada pelo prefeito Washington Reis (MDB) – que inclusive está desde o último dia 11/04 encontra-se internado no Pró-Cardíaco em Botafogo com COVID-19 – depois da cidade do Rio de Janeiro é uma das que registram os maiores índices. Segundo dados mais recentes disponibilizados no último boletim epidemiológico da Prefeitura local, até a última sexta feira (17/04), Caxias já tinha 421 casos suspeitos notificados; 201 casos descartados; 135 casos confirmados; e 34 óbitos. Aliás, a cidade também registrou a morte mais jovem pela doença no estado: uma jovem de 17 anos de Xerém.

Vale lembrar que, falando no prefeito Washington Reis, em um vídeo polêmico publicado no fim de março, o alcaide defendia que as igrejas permanecessem abertas. Naquela época, um decreto do governador Wilson Witzel (PSC) suspendia eventos com aglomerações e, segundo a assessoria de imprensa do estado, com efeito também em templos. Uma decisão em primeira instância determinou o fechamento das igrejas, mas a Justiça a derrubou em segunda instância. Na ocasião Reis defendeu a medida.

“Nossa orientação desde a primeira hora foi manter as igrejas abertas porque a cura virá de lá, né? Dos pés do Senhor. Vamos, se Deus quiser, orar. Agora mesmo estou indo para o monte, daqui a pouco. Estamos buscando…Duque de Caxias tem uma proteção de Deus para que escape dessa epidemia que vem ceifando milhares de vida pelo mundo afora”, disse o prefeito no final do mês passado. Essa postura, que culminou com a cidade sendo uma das últimas a decretarem oficialmente o isolamento social como medida mais contundente para frear o avanço do coronavírus – ainda que a gestão venha tomando uma série de medidas que visam o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, como a criação de um portal com boletins diários sobre a doença, a vacinação em sistema de “drive thru” e a criação de novos leitos para receber infectados pelo vírus – se refletiu no comportamento da população.

Apesar das atuais medidas restritivas não é difícil encontrar aglomeração pelas ruas da cidade, principalmente no Centro de Duque de Caxias, principal ponto de comércio da cidade. De acordo com dados compilados pela In Loco Geolocalização, as taxas de adesão à quarentena e/ou isolamento social na cidade encontram-se ainda insuficientes, conforme dados a seguir:

  • 16-20 março: 38,8%
  • 23-27 março: 54,1%
  • 30 março a 3 abril: 50,9%
  • 6-10 abril: 51,5%

Além do prefeito, desde a última quarta-feira (15/04) o médico e secretário de Saúde do município José Carlos de Oliveira encontra-se em casa, após também testar positivo para coronavírus, com bom estado de saúde conforme informado pela assessoria do executivo local.

E entre a demora na tomada de decisões pela instância governamental de Caxias, o desrespeito às normas de isolamento social dos moradores e os casos acentuados com óbitos na cidade encontra-se os profissionais de saúde do município. Testemunhas oculares e físicas dos impactos do COVID-19 em seu sistema de saúde, o Projeto Diversidade Sexual, Saúde e Direitos entre Jovens da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) entrevistou com exclusividade e em anonimato quatro profissionais de saúde que atuam na rede privada, municipal e estadual, respectivamente, de Caxias. Ambos relatam as dificuldades e os desafios para lidar com um sistema sobrecarregado de pacientes, a falta de equipamentos de proteção individual e inclusive a infecção pelo vírus, contraído por uma das jovens dentro do hospital.

“Estou me sentindo em um campo minado”

Com 16 anos de serviços prestados dentro do ramo da Enfermagem Ricardo* afirma nunca ter passado por situação semelhante na carreira. Atualmente trabalhando na rede privada de Duque de Caxias, numa unidade da Rede D’or, quando questionado sobre a situação da unidade nesse período de pandemia, ele é taxativo.

“Então, tá muito difícil de se trabalhar. A disseminação e letalidade desse vírus é muito rápida e não sabemos com o que estamos lidando. Já estamos sobrecarregados. Muitos colegas enfermeiros, médicos, técnicos e fisioterapeutas que estão na linha de frente já estão afastados. (A) escala tá pesada. Estou me sentindo em um campo minado, (em) que a qualquer momento pode ser eu (um infectado)”, lamenta.

Sobre os cuidados até aqui redobrados para que não seja mais um a engrossar as estatísticas dentro e fora da unidade, Ricardo afirma que utiliza – bem como os demais colegas – para cada atendimento medidas sanitárias protocolares tais como a correta lavagem das mãos e a utilização dos equipamentos de proteção individual (EPIs), entretanto, “o problema é que as unidades já não tem mais EPIs suficiente para trabalharmos”, revela. O que também não foi suficiente, para ele, foram as medidas adotadas pela prefeitura no combate a COVID-19, que culminou com a superlotação das unidades hospitalares e a falta de adesão ao isolamento social. “Por conta disso somos o epicentro da doença”, ressalta ele quanto ao destaque negativo da cidade na região da Baixada Fluminense.

Na linha de frente do combate, Ricardo pede para aqueles que ainda não entenderam a importância do isolamento social que não subestimem a periculosidade da doença. “Falando como profissional de saúde: é desesperador trabalhar em um local com grande risco de ser infectado. A doença não afeta só idosos: aqui no Brasil a letalidade é muito grande em jovens, já vi muitas mortes, até mesmo de colegas e sem poder fazer nada por eles. Então peço a todos que se protejam e quem puder ficar em casa, fiquem. A COVID-19 ainda não tem cura e a letalidade dela é muito grande”, alerta.

De fato, a fala do jovem tem consonância com o que vem sendo visto Brasil afora. O percentual de doentes jovens no Brasil supera o de países como os Estados Unidos, que lideram o ranking mundial da pandemia,  onde um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças publicado em 20 de março apontava que 26% das hospitalizações por coronavírus em UTIs, até aquele momento, situavam-se na faixa entre 20 e 54 anos.

No Rio de Janeiro, a taxa de mortalidade da doença em pessoas com menos de 60 anos (30%) é duas vezes maior que a de São Paulo. Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, todos os leitos de CTI reservados para pacientes com coronavírus já estão ocupados. Na última semana, em matéria veiculada pelo jornal El País Brasil, a médica Margareth Dalcomo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entende que a alta incidência da doença entre pessoas com menos de 60 anos se deve a uma adaptação ao perfil populacional do país. “No Brasil, a covid-19 vai rejuvenescer. A distribuição da população brasileira é diferente da europeia. Não temos um percentual de idosos que tem a Itália ou a Espanha. É natural que a doença se distribua majoritariamente entre jovens. A distribuição demográfica no Brasil dará à doença características brasileiras. Além disso, o vírus sofreu mutações e já se adaptou ao país”, disse Dalcomo.

Ricardo espera que esse período, onde cada vez mais os profissionais de saúde – especialmente enfermeiros/as, técnicos/as de enfermagem, auxiliares de enfermagem entre outros – são fundamentais sirva para que a sociedade se dê conta da importância dos mesmos e isso reverbere futuramente para que a categoria “tenha salários adequados. Afinal, merecemos”, acredita.

Nota da Redação: nesta segunda feira (20/04), em contato com o Projeto Diversidade, Ricardo revelou ter testado positivo para COVID-19. O jovem encontra-se afastado do trabalho, com sintomas leves e de quarentena em casa.

“Todos os profissionais foram incansáveis pela recuperação dela”

Atuando há 12 anos no ramo da saúde, sendo os últimos dois anos como enfermeira Cleide* trabalha e reside em Duque de Caxias. Em entrevista, sob anonimato para o Projeto Diversidade Sexual, a jovem revela que a situação no Hospital Dr. Moacyr Rodrigues do Carmo – principal emergência municipal de saúde da cidade – não está diferente do que se vê na televisão ou se lê na internet: “igual a outros hospitais. Cheio demais, sem vaga de CTI (Centro de Terapia Intensiva) e ventiladores (indispensáveis para manter o paciente respirando e, sobretudo vivo) para todos. Todos (estamos) trabalhando no limite”, atesta.

Com o sistema “sobrecarregado por atender Caxias e a maior parte da Baixada Fluminense também” e os casos se multiplicando, alguns casos mais graves se notabilizam. Muitas das vezes sem final feliz. Foi isso que aconteceu com a estudante Kamilly Ribeiro, de 17 anos, que morreu na última terça feira (14/04), vítima de COVID-19. Segundo a assessoria da prefeitura a adolescente foi transferida para um leito de CTI, ainda em 24 de março, e que morreu 20 dias depois.

A estudante também foi atendida e tratada, inclusive com o uso de Cloroquina “conforme indica o protocolo do Ministério da Saúde para o uso do mesmo”, segundo o boletim médico da Secretaria Municipal de Saúde. “Todos do hospital acompanharam (a situação). Foi realmente feito tudo por ela. Todos os profissionais foram incansáveis pela recuperação dela, mas infelizmente não deu”, lamenta Cleide. A enfermeira, porém, chama atenção para o fato de que, mesmo com todos esses registros, “o problema dos jovens é achar que isso é doença de velho e não é. Existem outros jovens na mesma situação”, pontua.

E a preocupação também encontra eco em si própria e em seus colegas de profissão. Isso porque a enfermeira denuncia a falta de equipamentos necessários na unidade para o atendimento médico. “Até há a distribuição de EPI (Equipamento de Proteção Individual), mas não o suficiente para o plantão todo. Os capotes são contados. Não tem óculos para todos. E eles estão pegando uma máscara e fazendo como se fosse duas”. E completa: “os profissionais lá (no hospital) tem um lema: sem EPI não dá pra atender o paciente. Porque a exposição já é enorme e sem os equipamentos piora. Não tem muito o que fazer. Colocamos os EPIs, tomamos todo o cuidado na hora de manipular o paciente e sempre lavamos muito as mãos”.

Cleide também acredita que a baixa adesão ao isolamento social contribuiu para que a situação chegasse a tal ponto. Para ela, “a população achou que isso era uma palhaçada e os comércios fecharam a porta tarde, ainda que tenha muitos contrariando o decreto e estejam abertos. A ignorância das pessoas em não acreditar no poder fatal da doença é o pior”, critica. Sincera, ela espera que essas pessoas “não precisem de hospital porque se precisar, provavelmente, não terá vaga. E se tiver, provavelmente, não terá ventilador para todos”. E finaliza com um lembrete: “o isolamento é de extrema importância para minimizar a propagação. Ouço muitos falando que estão isolados e não está adiantando, mas está sim. Estaria muito pior se todos pensassem como esses. E que Deus nos ajude porque o pior ainda não aconteceu”.

Na última segunda feira (16/04), o prefeito Washington Reis anunciou a compra de uma unidade de saúde particular que será transformada em um novo hospital para atendimento exclusivo aos pacientes diagnosticados com o novo coronavírus na cidade. Segundo a prefeitura, a antiga Casa de Saúde São José foi adquirida através de recursos oriundos do Governo do Estado, e vai oferecer 40 novos leitos para tratamento de casos do Covid-19.

“Além disso, será ampliada a capacidade de atendimentos na rede municipal de saúde, com 150 novos leitos, em um prazo de 30 dias. Para isso, serão disponibilizadas vagas em unidades como a nova Maternidade de Santa Cruz da Serra, a Policlínica Duque de Caxias e o Hospital Municipal dr. Moacyr Rodrigues do Carmo”, disse ainda a prefeitura do município da Baixada Fluminense, em comunicado.

“Estou há uma semana com os sintomas”

Após nove anos na Enfermagem Maria* enfrenta um dos períodos mais desafiantes da carreira. Moradora e também profissional de saúde caxiense a jovem atua no Hospital Estadual Adão Pereira Nunes (HEAPN), popularmente conhecido como Hospital de Saracuruna e, literalmente, vem sentido na pele os efeitos da pandemia de coronavírus.

Há uma semana Maria recebeu o diagnóstico da testagem positiva para COVID-19, já sob suspeita após o surgimento dos primeiros sintomas. “No início foi horrível. Os sintomas são semelhantes com o da Chikungunya, Porém, além de afetar todo o corpo, atinge as vias aéreas deixando com sintomas muito parecidos com o da sinusite e a perda do olfato e do paladar”, explica. No front do combate ao vírus, ela faz coro com a reclamação dos demais profissionais de saúde acima no que diz respeito aos EPIs: poucos e insuficientes.

Maria revela ainda que assim como ela diversos outros colegas do hospital estão na mesma situação, ou seja, afastados da rotina de trabalho pelo adoecimento por coronavírus. “Inclusive, um de nossos colegas se encontra internado em outra unidade em estado grave, respirando com ajuda de aparelhos”, chama atenção.

Secretaria de Estado de Saúde anunciou, na terça (31/03), que terá mais 1 800 leitos em hospitais de campanha para enfrentar a COVID-19 em território fluminense, sendo 520 de CTIs. Eles serão montados em estruturas na capital, na Região Metropolitana e no interior do estado. Desses, 200 no HEAPN (40 de CTI). Segundo a profissional de saúde, isso pode ajudar a desafogar a unidade estadual, porém ressalta que “na verdade, o Brasil já deveria ter se preparado desde o carnaval, onde já estávamos sendo avisados pela mídia sobre a situação ocorrendo em outros países. Mas preferiram levar tudo em festa, como sempre”, reclama.

Como todo cuidado é pouco, ela observa. “Fiquem em casa e se protejam. Infelizmente é um vírus novo e não sabemos e nem temos a menor ideia do que ele pode ocasionar no nosso organismo. Cada pessoa irá reagir de uma maneira, umas mais graves e outras mais brandas. Teremos que contar com a sorte do nosso sistema imunológico e como o vírus vai se comportar frente a ele. Também não sabemos da sequela que poderá deixar permanente em nosso corpo”.

“Optei por fingir que não possuo os sintomas”

Também profissional da saúde e atuando na mesma unidade, porém na área do centro obstétrico, João* – companheiro de Maria – tá vendo de perto que a realidade do combate ao COVID-19 é muito mais séria daquilo que é divulgado na imprensa. Sua principal recomendação é que “aqueles que não tiverem outra escolha e precisarem sair de casa que o façam com todo o cuidado do mundo porque a doença é severa. A gente só passa a crer quando vê um conhecido ou nós mesmo contraindo os males”, adverte. Ele também disse que tem colegas de trabalho no CTI e outros muito abatidos. “Espero que melhorem!”, torce.

Porém João diverge em algumas questões. O jovem se mostra cético quanto a capilaridade do hospital de campanha que está sendo erguido ao lado do Adão Pereira Nunes. “Se os hospitais do município não dão conta da pandemia, dificilmente um hospital de campanha fará isso. Porém, é a única coisa que a população tem é torcer para que funcione!”, afirma.

Chamando a atenção para o abatimento e o desespero de muitos profissionais de saúde experientes da unidade para com a preservação de suas vidas e de suas famílias, João diz que os EPIs disponíveis no Brasil para utilização, se comparados ao restante do mundo, coloca o país em “nítida desvantagem”. “São de uma qualidade tão baixa que parece piada ser obrigado a usar”, critica. Ainda assim, durante a entrevista, de forma sincera e direta ele faz uma confissão preocupante – porém não inédita no atual cenário.

“Atualmente ganho pouco mais de % do que precisaria para pagar as despesas, o que me obriga a fazer horas extras e complementar a renda. Por isso optei por fingir que não possuo os sintomas, utilizar os EPIs e continuar trabalhando”. No Brasil, a média salarial de um Técnico em Enfermagem é de R$ 1.782, o da Enfermagem varia em função do cargo que o profissional ocupa e o estado onde atua, mas tá na média salarial de R$ 3.092 para o cargo de enfermeiro e de Auxiliar de Enfermagem se inicia ganhando R$ 1.615,00, com média de R$ 2.044,00, de acordo com o Guia de Profissões e Salários da Catho.

O Brasil tem 490.859 médicos em atividade, segundo o Conselho Federal de Medicina; não existem dados, no entanto, sobre o total de profissionais da área da saúde, contando enfermeiros, técnicos, maqueiros e outros, no país. Ao menos 8.265 profissionais de saúde em todo o país estão afastados de suas funções em meio à pandemia do novo coronavírus.

 

*Todos os nomes são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados, que falaram sob condição de anonimato.

 

Texto: Jean Pierry Oliveira

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