Em conferência, escritor faz alerta sobre saúde mental de jovens na pandemia


Andrew Solomon, em cena do documentário “Longe da Árvore” – Andrew Solomon/Divulgação

Crianças e jovens de 10 a 29 anos são os mais afetados por depressão e ansiedade ligados à Covid-19 e ao isolamento, e todos os pais e mães precisam estar atentos a esse problema.

Esse foi o alerta de Andrew Solomon, escritor norte-americano que é referência mundial nos temas depressão e saúde mental e palestrante desta quarta-feira (11) do Fronteiras do Pensamento, realizado no formato digital.

Segundo Solomon, que é professor de psicologia clínica na Universidade Columbia, 90% das crianças e jovens nessa faixa de idade estão sofrendo de algum grau de depressão.

“Não houve nenhum tipo de planejamento no Brasil, nos EUA e na maioria de outros países para lidar com os efeitos da pandemia e do isolamento sobre famílias e crianças”, diz Solomon, autor de best-sellers como “Longe da Árvore” e “O Demônio do Meio-Dia”, obra finalista do Prêmio Pulitzer.

O escritor falou sobre seu filho George, de 11 anos, e de como o isolamento e o medo da pandemia o deixaram mais ligado fisicamente aos pais, em uma espécie de “regressão”. “Na realidade, todos nós regredimos quando estamos ansiosos. E eu também me dei conta que estava me apegando ao meu filho.”

Segundo Solomon, fazer com que uma criança fique horas a fio em frente a uma tela, para as aulas online, sem ter nenhum contato ou socialização com pessoas de sua idade, é como querer que “uma planta cresça sem água”.

“George vai crescer marcado por aspectos do amadurecimento dos quais ele foi privado por conta do confinamento”, afirmou. “E não sabemos como compensar o que está faltando.”

Ele e seu marido enfatizavam para George quão sortudos são; afinal, mantiveram o emprego, têm o que comer, não estão doentes e não perderam ninguém próximo. Mas esse discurso, após um tempo, não é suficiente para uma criança entender ou se conformar com a situação de estar totalmente privada de tudo o que tinha antes, diz.

O escritor ressalta o desafio de lidar com as dificuldades enfrentadas pelas crianças neste momento. “Eu tendia a complacência (com George), temia que ele chegasse a um ponto de ruptura. Mas ele também precisava de estrutura; para uma criança, complacência total traz confusão.”

Apesar dos tempos desafiadores, ele acha que algo positivo pode vir da experiência do isolamento e da pandemia. “Talvez essa conexão que criamos [com nossos familiares], porque agora dependemos tanto uns dos outros, nos deixará mais conectados para sempre.”

Solomon abriu sua fala de forma otimista. “Falo com vocês em uma semana de esperança, a esperança com a eleição de Joe Biden e a esperança de que essa pandemia chegue ao fim [por causa do anúncio de que uma vacina atingiu alto nível de eficácia]”, disse.

Mas o professor de psicologia ressaltou a importância de manter o cuidado com a saúde mental. “Há muitas pessoas com ótima saúde física, mas que estão com a saúde mental muito abalada. Isso talvez não seja recuperado com uma vacina ou com o resultado de uma eleição.”

Fonte: Folha de São Paulo

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