Curta com travestis e transexuais revela a importância do nome social


O quanto o nome pode significar para uma pessoa? E no caso de pessoas trans? Enquanto muitos pensam que os nomes sociais, adotados de acordo com os gêneros, são feitos aleatoriamente ou inspirados em nomes de famosos, por exemplo, a verdade é que carregam muitas histórias familiares e até religiosas. Exibido na noite de ontem do Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema, o curta “Nomes que importam” tem entrevistas com pessoas transgêneras que contam o porquê da escolha de seus nomes.

Dirigido por Angela Danini e Muriel Alves, o documentário entrevista nomes conhecidos no meio e outros que deram depoimentos na Casa Nem, local de acolhimento e formação de travestis e trans, na Lapa, Rio de Janeiro. “Tivemos a preocupação de manter a memória dessas pessoas que trabalharam na TV, fizeram sucesso com shows, que acabam não tendo quase nenhum registro. E também quisemos mostrar pessoas de uma geração mais nova, por isso falamos do projeto com a Casa Nem, que apoiou a ideia e fez uma roda de conversa. Filmamos lá em dois dias”, explica Ângela, que é professora da UniRio e conselheira do Fundo Elas.

A diretora conta que o curta surgiu da impossibilidade de realização de um longa-metragem que começou a ser pensado há alguns anos. “Queríamos abordar a atuação de travestis e trans que, nos anos 1990, confrontaram o governo e lutaram para conseguir remédios e tratamentos para as vítimas da Aids. Por outro lado, também queríamos fazer algo que saísse um pouco do movimento LGBT, protagonizado por gays brancos. Em 2011, começamos a pegar depoimentos, que eram narrativas de vida dessas pessoas, para mostrar que elas ocupam os mais diversos espaços. Entrevistamos advogados, professores, estudantes, artistas… Seriam poucos personagens que mostrariam seu dia a dia de forma sensível e poética”, diz.

O projeto não foi à frente, principalmente por falta de patrocínio. Por conta disso, ano passado, Muriel propôs  a Ângela a realização de um curta com o material que tinham em mãos. “Além das questões sobre política, ativismo e sociedade, nós fazíamos uma pergunta específica sobre a origem de seus nomes. Foi aí que percebemos que seria esse recorte que abordaríamos no curta”, conta.

Muitas histórias de dor e preconceito, mas outras também engraçadas e curiosas foram escolhidas para o curta que, se não apresenta trans homens – Ângela diz que foi por acaso, pois nenhum estava presente nas filmagens anteriores nem no dia em que estavam na Casa Nem – prioriza personagens com mais experiência. “Tivemos o cuidado com esse olhar histórico, de mostrar negras e nordestinas que tiveram importância enorme no ativismo dos anos 1960 e 1970”, diz. Um desses nomes é Welluma Brown, que chegou a ser chacrete na “A buzina do Chacrinha”, da TV Tupi, nos anos 1970, e morreu num acidente doméstico em 2013. No curta, ela brinca dizendo que “muita gente não imaginava que no meio daquelas pernas tinha um pênis”.

Há histórias como a de Ludymilla Anderson, que fez questão de manter o nome de batismo como segundo nome, e o de Jovana Baby, que conta que já perguntaram se ela tinha amostras do perfume para vender. Já Evelym Gutierrez, que fez a produção na parte das filmagens no Rio, diz que o nome foi dado por uma Pomba Gira, quando esteve num terreiro de umbanda. “O desafio hoje é que essas pessoas tenham espaço na sociedade e possam ter acesso à formação escolar e profissional. A Casa Nem, por exemplo, está com uma exposição dentro do Foto Rio, na Uerj, chamada ‘Transborda Nem’. São fotos, poesias que contam experiências de homens e mulheres trans”, diz Ângela.

Fonte: Jornal do Brasil

 

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