Criança trans para adoção faz abrigo se adaptar a mudança de gênero


O comportamento da criança de sete anos chamava a atenção na Casa Vó Benedita. João* (nome fictício) utilizava as fraldas de pano na cabeça para simular cabelos longos e preferia os brinquedos considerados femininos. A criança se isolava dentro do ambiente e, com acompanhamento psicológico e apoio do abrigo, entendeu que seu desconforto era por sua identidade de gênero. João descobriu que se identificava, na verdade, como Ariel* (nome fictício), uma menina transgênero. Foi o primeiro caso de adoção de criança trans registrado no abrigo, um dos mais conhecidos de Santos.

A presidente da Casa Vó Benedita, Elizabeth Rovai de França, 67 anos, acompanhou o caso de perto, desde a chegada da criança até a adoção. Ela explica que desde os primeiros encontros com a psicóloga do abrigo, a situação da criança foi analisada. Assim que houve a confirmação, a instituição começou um processo de adaptação. “A equipe técnica do Fórum (de Santos) fez uma reunião com a nossa equipe, falou qual seria o procedimento e como poderíamos agir. Explicaram que a partir daquele momento a criança teria a liberdade de escolher a roupa que quisesse vestir, e como seria chamada”, conta Elizabeth.

A primeira reunião contou com a presença de três psicólogos e a equipe do abrigo. Neste primeiro contato, o caso de Ariel foi apresentado a todos, e o trabalho de adaptação começou. Elizabeth Rovai explica que a psicóloga conversou com os funcionários, e fez visitas durante os turnos, no período que Ariel ficou no abrigo. O acompanhamento era para explicar a questão da transexualidade e orientar os funcionários para que permitissem à criança tomar decisões próprias.

A adaptação dos funcionários do abrigo acontecia simultaneamente com o acompanhamento da criança por duas psicólogas. Ariel começou a ter liberdade para escolher as próprias roupas, e toda a equipe sentiu uma mudança muito positiva nela. “Quando as crianças iam pro cinema, a Ariel gostava de se arrumar”, relembra Elizabeth. “Ela colocava saia e fita no cabelo e ficava em uma felicidade sem fim”.

Apesar do choque no primeiro momento, todos da equipe da Casa Vó Benedita se adaptaram e aprenderam a respeitar o espaço da criança. Elizabeth acredita que a resistência acontece mais por parte dos adultos. “As crianças ficavam e brincavam juntas normalmente. O preconceito é algo que vem do adulto. A criança senta junto, brinca e não se importa com essas diferenças”.

Ariel ficou cerca de três anos no abrigo, mas o processo de transição e adaptação da equipe começou em janeiro deste ano, e continuou até ela ser adotada, em abril. O processo para encontrar uma família para a menina transgênero começou com uma busca classificativa, feita pelo Fórum de Santos. Foi quando encontraram um casal transgênero do interior, que já tinha adotado duas crianças, uma delas também trans.

A tramitação para a adoção e o direito ao nome social aconteceu este ano. Os pais e a criança passaram por uma preparação prévia. O casal veio até Santos e conseguiu autorização para passar um tempo com Ariel. O contato entre a menina e família foi bem-sucedido. Ela se mudou com os pais adotivos e se tornou o primeiro registro de criança transgênero no abrigo santista.

Elizabeth Rovai avalia todo o processo de adaptação como uma lição e experiência para funcionários e voluntários da instituição, e classifica a preparação como essencial. “Basta ver quantos suicídios de jovens por conta da não aceitação são registrados hoje, principalmente para crianças trans ou homossexuais. É necessário um preparo em todos os abrigos, e para nós foi um aprendizado maravilhoso”, relata.

Preconceito

O advogado Gustavo Prado, coordenador de Proteção Social de Alta Complexidade da Prefeitura de Santos, explica que hoje o maior obstáculo capaz de reduzir a possibilidade de adoção de acolhidos transgêneros é o preconceito. Ele afirma que os serviços estão preparados, e sempre se capacitam para atender esses casos, mas a resistência na sociedade ainda é um desafio. “O preconceito surge por conta da desinformação. Divulgar casos, debater e desmistificar conceitos fabricados é a solução para acabar com ele”, ressalta.

Prado explica que a conscientização deve começar na educação básica, para que a desinformação não aumente. Ele aponta a Casa Vó Benedita como um exemplo de adaptação, e explica que a orientação é necessária. “O acolhimento, dessa forma, desenvolve um ambiente seguro, onde as crianças ou adolescentes transgêneros se sentem confiantes, e podem se desenvolver”.

Transição na infância

A noção de feminino e masculino começa de um ano e meio a 3 anos de idade, diz Saulo Vito Ciasca, médico psiquiatra e colaborador do Laboratório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ele afirma que a identidade de gênero se consolida perto dos 3 anos, embora muitas vezes se manifeste mais tarde. “A identidade de gênero faz parte da personalidade do indivíduo, já vem com a pessoa”.

Quando a criança nasce, diz o médico, ela tem um gênero designado, por conta do sexo biológico. Por isso, segundo ele, há resistência em abordar o tema e as questões de uma pessoa transgênero. Para Ciasca, negar a existência da transexualidade na infância leva à crença de que ela seja apenas um fenômeno cultural, e não algo também biológico.

Essa resistência é o grande motivo da dificuldade de socialização das pessoas trans, especialmente na infância. “A criança que reivindica essa identidade e não é legitimada pelo seu meio, não é chamada pelo artigo certo, ou pelo nome social, por exemplo, é uma criança que sofre”, aponta Saulo Ciasca.

Durante a infância não é permitida qualquer intervenção física, medicamentosa, hormonal ou cirúrgica, explica o psiquiatra. O que acontece é um acompanhamento com a criança, para ver se ela está se adaptando. A transição social passa a ocorrer quando os pais aceitam vestir a criança com roupas do gênero com o qual ela se identifica e chamam pelo nome social.

“Observamos o meio, como essa criança está se adaptando a ele, como é essa identidade, e se ela reivindica a identidade”, diz Ciasca. Ele afirma que, para a adaptação, é necessário um trabalho transdisciplinar com psiquiatra, psicólogo, fonoaudiólogo, assistente social, ginecologista e endocrinologista.

Fonte: G1

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